Tuesday, July 09, 2013

Incêncio no Mercado Público: flores ou comida?

Estudei língua japonesa dos 8 aos 18 anos e, uma das minhas matérias preferidas eram as raras aulas de provérbios. Lembro especialmente de um deles – Hana yori dangô – que, ao pé da letra, quer dizer algo como “prefira comida a flores”. Explicando: dangô é um bolinho feito à base de arroz moti e hana é flor. Enfim, uma frase que está longe de ser poética, ao contrário do que a maioria dos provérbios orientais costuma ser.

Não sei quem é autor da frase, tampouco sei especificar a época em que foi criada a expressão, mas imagino que seja relacionada à escassez de terras (e, consequentemente, de recursos naturais) - questão sempre superada com muita criatividade pelo povo japonês.

Na época em que aprendi o provérbio Hana yori dangô, eu o interpretava de forma simples e rasa (embora não fosse equivocada), até porque devia ter apenas 12 ou 13 anos. Ficava imaginando o óbvio: era melhor ter comida do que flores. Afinal, as flores só serviam para enfeitar, enquanto a comida enchia minha barriga”.

Agora, ao acompanhar o triste episódio do incêndio do Mercado Público de Porto Alegre, fiquei incomodado com a irônica falta de água – ou da devida pressão da mesma nos hidrantes do entorno. É revoltante pensar que o mesmo Mercado Público onde foram instalados modernos chafarizes em setembro do ano passado, sofreu um incêndio que tomou enormes proporções justamente pela falta de água no local. Sei que os chafarizes possuem um reservatório próprio e não devem ter ligação alguma com a rede de hidrantes, mas a imagem daquela água toda jorrando para cima sempre vem à minha cabeça quando lembro do incêndio.

Então pensei comigo mesmo: um governo que se preocupa com chafariz e não revisa seus hidrantes, segue a direção oposta do provérbio Hana yori dangô. Em vez de investir no PPCI (vencido há 7 anos), ele prefere investir em parcerias público-privadas para construir obras de impacto visual. A prefeitura prefere flores a comida.