Friday, May 09, 2008

No ano do centenário, lá em casa a gente comemora os 44 anos de imigração.
Uma gravidez interrompida para poder enfrentar 50 dias no mar, costeando a Ásia, África e, por fim, cruzando o Atlântico. Um país estranho, uma língua estranha e difícil, cheia de regras que nem mesmo os nativos sabiam usar corretamente. A chegada da primeira filha é sua primeira semente plantada em solo brasileiro. As outras, de alface, tomate, repolho e pimentão, a enchente tratou de pôr por água abaixo.

Nova temporada, chega a segunda filha, o trabalho na lavoura é duro e a saudade do missoshiru, enorme. Em uma carta que devia trazer boas novas, a mensagem começa com a palavra “infelizmente”. Era a morte do seu irmão. Vem a terceira filha, tão pequenina que ficava de pé na palma da mão, batizada com o nome que significa 1000 tsurus – a ave símbolo da longevidade no Japão. Sim, a vida no novo país vai ser longa e o caminho, bastante tortuoso. Decidem por plantar tomates. Os pés de tomate crescem rapidamente, absorvendo tudo o que o solo catarinense lhes ofertava de boas-vindas. Mas o céu não foi tão generoso: trouxe a maior geada dos últimos 30 anos.

Na tentativa de combatê-la, fizeram fogueiras durante a noite, queimaram pneus, rezaram. Tudo em vão. O proprietário das terras arrendadas não quis saber de quem era a culpa, embora fosse todinha de São Pedro. Despejou as famílias da propriedade e ordenou que abandonassem suas casas sem levar nada. Então ela vai para a casa do irmão com uma mão na frente e outra atrás. E dois filhos na barriga. Com a ajuda do capataz, conseguiram recuperar seus bens na calada da noite, invadindo o que, até então, eram suas próprias casas.

O sofrimento é muito grande. É preciso mudar de ares. Cruzam o Mampituba para se unirem a outros imigrantes japoneses na colônia de Ivoti, onde nascem os gêmeos. Uma menina e um menino. A menina era forte e mamava muito. O menino, mamava o pouco que lhe restava e ainda assim vomitava quase tudo. Ela jamais imaginaria que, mais tarde, este mesmo menino teria forças para jogar bola 5 vezes por semana. Até porque, quem tem 5 filhos não tem tempo para pensar. Só trabalhar.

Naquela época, iniciava-se o cultivo de uvas de mesa na região, diferentemente dos italianos, que cultivavam uvas para a produção de vinho. Um dia, fazendo “chimia” de uva, ela se descuidou e deixou queimar o fundo da panela. O sabor doce da geléia misturado com o amargo do fundo queimado a fez lembrar de um famoso ingrediente da culinária japonesa: o shoyu. Bastou acrescentar sal para matar as saudades da terrinha. Que banquete!

As 5 crianças iam crescendo e, junto, crescia a preocupação de proporcionar uma boa educação para que todos tivessem um futuro melhor. Não restava outra opção senão juntar as tralhas e fazer a sétima mudança no Brasil. Desta vez, para a cidade. Onde novamente a raspa da panela aparece: nasce totalmente fora dos planos, o sexto filho. O segundo filho homem, registrado com o nome Keigiro que, em japonês, significa “a segunda felicidade”. Essa é apenas uma parte da história da minha mãe. E é por isso que eu respeito muito ela.

7 comments:

Gus Bozzetti said...

Tá.
Acabou meu dia.
Foda tua história, J. Mas é bom pra gente parar de reclamar e fazer por onde.
Feliz dia das mães pra ti também.

keigiro said...

é, meu amigo...dona hisako tem só 1,52 mas é uma baita mulher.

sofia said...

lindo o texto...feliz dia para essa grande mulher que é a tua mãe! nós em portugal celebrámos o dia da mãe domingo passado. bemvindo de volta. já fazia falta! :)

Emir said...

... te reconheci na foto antes de ler o texto. ufs, um grande beijo pra Mãe da Segunda Felicidade. - segunda felicidade é nome feminino no Japão?

keigiro said...

sofia, obrigado e tudo de bom pra sua mãe também. emir, será que estou tão gordo pra me reconheceres assim, tão rápido?

Nana said...

Que linda essa história de vida, merece aplausos. Dê um beijo na sua mãe por mim, Kei. Saudades. Bjim.

Daniel Oliveira - Decifrar said...

Keigiro! Neste natal minha mae partiu! Foram tantas boas lembranças que passaram na minha cabeça enquanto lia teu texto, pensando o quanto a vida dá suas voltas e a forma que estas mulheres as enfrentavam... Um beijo a tua mae!