Tuesday, March 06, 2007

- Matilde, o porco tá me matando!
Considerando-se que após essa frase, só o que se ouviu foram gritos que alternavam entre “socorro” e “aiaiai”, essas foram oficialmente as últimas palavras proferidas pelo agricultor Antônio Felisteu dos Santos*, 58 anos, morto por um dos porcos que criava em sua pequena propriedade rural.

Por motivos ainda não encontrados, o porco atacou o agricultor com uma mordida profunda na coxa direita, causando-lhe uma hemorragia grave e, neste caso, fatal. O crime (se é que assim podemos chamar) virou o assunto de todas as rodas da redondeza. O povo, que além de sábio, é muito criativo, logo tratou de especular sobre o ocorrido, inventando inúmeras versões sobre o crime que abalara o pacato vilarejo.

A primeira delas (e também a mais polêmica), levanta suspeitas de um adultério zoófilo. Em outras palavras, seu Antônio teve relações carnais com uma carne suína. E é nessas horas que a sabedoria popular pesa muitas arrobas. Embora zoofilia pareça nome de doença, manter relações sexuais com animais é uma prática bastante comum nas áreas rurais, com uma única ressalva: não é aconselhável transar com porquinhas, pois elas se apaixonam. E quando se apaixonam pelo seu parceiro, seguem-no por todo o lado, entregando a todos que o perseguido fez algo com a perseguida da porquinha.

Ou seja, a morte do seu Antônio não era vergonhosa só pelo fato de ele ter sido assassinado por um porco, mas principalmente pelo motivo que desencadeou a briga. E vale lembrar que quem morria de vergonha não era o seu Antônio (até porque ele já estava morto), mas sim os seus familiares, que não sabiam mais onde enfiar a cara.

Marcelo, seu filho único (pelo menos com um ser humano) sentia vergonha pelo pai. Por ter visto de perto a cena em que fora derrotado por um porco. Por ter ouvido as útimas palavras e os últimos gemidos do seu pai, sem nada poder fazer.
- Como assim? Meu pai foi morto por um suíno? E as últimas palavras dele foram “Matilde, o porco tá me matando!”? Meu Deus do céu, isso é muito humilhante.

Decepcionado com o exemplo de masculinidade que tinha em casa e cansado de ser alvo de chacotas, Marcelo foi morar com o avô que morava em Roraima. Exatamente 8 dias e 7 horas de viagem. Tempo suficiente para o garoto relaxar, virar a página e fazer planos para uma vida nova, bem longe do passado macabro. Mas uma coisa não lhe saía da cabeça. As últimas palavras do seu pai antes de falecer. Se a morte era a única certeza da vida, Marcelo queria ao menos ter outra certeza: que suas últimas palavras seriam menos patéticas do que as proferidas pelo seu pai.

Por isso, boa parte da viagem ele usou para pensar na tal frase. Tinha que ser algo que servisse tanto para daqui a 60 anos, quanto para daqui 2 dias. Porque a morte não tem hora pra chegar, e não espera a gente pensar numa frase boa. Tinha que ser uma frase rápida e curta, já que a morte pode acontecer de uma hora para outra. Algo com no máximo 2 palavras. Seria “missão cumprida”? Que tal “eu sabia”? Ou ainda “todos morrerão”?

É, “todos morrerão” não era de todo ruim. Uma frase com apenas 2 palavras, adaptável às mais diversas situações. Poderia significar “não fiquem tristes com a minha morte, pois um dia todos morrerão e nos divertiremos no céu”. Em caso de um assassinato, a mesma frase poderia ter a conotação de “eu estou morrendo agora, mas todos morrerão, inclusive vocês, seus filhos da puta”. Enfim, “todos morrerão” parecia bom.

Quando Marcelo chegou a essa conclusão, o ônibus da Viação Piracema estava prestes a cruzar a fronteira entre os estados do Pará e Roraima, a poucas horas da capital Boa Vista, onde morava seu avô. Foi exatamente neste local que o ônibus foi abordado por um grupo de guerrilheiros ligados ao narcotráfico. Cerca de 20 homens encapuzados munidos de metralhadoras invadiram o ônibus aos gritos:
- Todo mundo no chão e de bico calado! No chão! Se alguém se mexer, todo mundo vai morrer! Todos vão morrer!
- Ei, essa frase é minha...

RÁ-TÁ-TÁ-TÁ-TÁ-TÁ-TÁ-TÁ-TÁ-TÁ!!!!!!!!

*nome fictício