Thursday, December 29, 2005

MEUS PRÓPRIOS PALÍNDROMOS - PARTE II

AVON, A TARA DA RATA NOVA

ATÉ CUBA ACATA E ATACA A BUCETA

LÂMINA ABANA A NABA ANIMAL

SINA É ZORRA, ARROZ E ANIS

O LOBO ASSA O BOLO

O MEDO AVIVA O DEMO

Wednesday, December 28, 2005

12:25
aquele dia eu sofri, é verdade
aquele dia você foi-se embora
deu as costas e jogou fora
toda nossa intimidade

com você eu nem me importo mais
mas aquele dia eu não esquecerei jamais

aquele dia de domingo
ao meio dia vinte e cinco
o dia ficou triste e chorou junto comigo

Thursday, December 08, 2005

Pra compensar esse tempo todo sem postar, uma historinha mais longa, baseada num papo que rolou com o zeca dias atrás.

RUIM DE NOME
- Hein?
- Marivaldo
- como?
- Marivaldo. Filho de Maria e Osvaldo. Marivaldo.
- ah, entendi. Explicando assim fica fácil! Então é Marivaldo de Oliveira dos Santos Barcelos?
- Barcellos com dois éles.
E assim ficou registrado na certidão de nascimento, na identidade, no cadastro da creche, no caderno de chamadas da escola.

A Escola

Depois das Marias, das Marianas e da Marisa, lá estava ele. Todo começo de ano era a mesma coisa. Conforme a professora ia fazendo a chamada e o nome dele se aproximava, Marivaldo começava a suar as mãos, a tremer as pernas, e seu coração queria saltar pela boca.
- Marivaldo!?
Quase que se escondendo pra debaixo da carteira, ele respondia baixinho, gaguejando.
- p-presente.
A classe inteira caía na gargalhada. Era piadinha pra cá, risadinha e cochichos pra lá. Uns o chamavam de mariazinha, outros de mariquinha e por aí vai. Na quarta série ele ganhou até uma música.

Marivaldo travecão, travecão!
De dia é Maria e de noite é Valdão!


E assim foi a infância de Marivaldo. Repleta de traumas. Nem os próprios pais o chamavam pelo nome que eles mesmo haviam inventado. O pai dizia que Marivaldo era muito comprido, por isso achava melhor chamá-lo de Valdo, enquanto a mãe, mais carinhosa, o chamava de Valdinho. E Valdinho foi o apelido carinhoso que mais pegou. A maioria dos parentes e os poucos amigos que ele tinha chamavam-no dessa forma.


A adolescência

Valdinho cresceu, chegou à puberdade e, aos 14 anos, ele jamais havia beijado uma menina na boca, ao vivo, em carne e osso. Porque em fotos ele já havia beijado milhares. Inclusive top models internacionais, capas de revista. Também pudera. Menino retraído, com um nome estranho, motivo de chacotas no colégio. Sem falar que, além do nome, os genes herdados dos seus pais também estavam longe de torná-lo um rapaz com um padrão mínimo de beleza. Quando ia puxar conversa com uma menina, ele inventava os mais diversos assuntos, mas nunca, nunca, chegava perguntando o nome dela. E quando a menina perguntava qual era o seu nome, ele dizia que era Valdo. Certa vez, quando tinha 15 anos, Valdinho ficou com uma menina, Janete, que ficou uns três meses sem saber sua verdadeira identidade. Até o fatídico dia em que os dois pegaram o mesmo ônibus na volta do shopping quando, ao passar pela roleta, Valdinho mostrou sua carteira estudantil ao cobrador e, na pressa de guardá-la no bolso, deixou cair no chão. Até hoje ele relembra da cena. A carteira caindo em câmera lenta, como se fosse cara-ou-coroa, em direção aos pés de Janete. Deu cara. E junto da cara, lá estava a identidade secreta do nosso anti-herói.
- MARIVALDO??? Seu nome é MA-RI-VAL-DO???
Valdinho sumiu por entre os passageiros, atravessou bravamente uma barreira de dezenas de velhinhos que atravancavam a saída e desceu no primeiro ponto de ônibus. Ele nunca mais viu Janete. E morria de medo de encontrá-la na rua, e que ela ficasse apontando pra ele e dizendo "seu nome é Marivaldo! ahahaha". Aliás, esse era um pesadelo que ele tinha repetidas vezes.

Paralelamente
Por outro lado, em razão do trauma com nomes, Valdinho desenvolveu uma estranha obsessão por criar nomes. Quando ele ganhou um cachorro, aos 12 anos, chegou a fazer uma lista de 47 nomes. Avaliou-os um por um, levando em conta os prós e contras, as possibilidades de abreviação, a sonoridade e a originalidade. O cão ficou uma semana sem nome, até que Valdinho decidiu por Dadinho, por se tratar de um dálmata, por ser parecido com Valdinho e também porque ele poderia dizer pros outros que o verdadeiro nome do cachorro era Eduardo, mas que podiam chamá-lo de Dadinho. E a mania de criar nomes se estendeu ao papagaio, ao carro da família, até ao restaurante de frutos do mar que sua mãe abriu no centrinho de Tramandaí. Depois de criar uma lista de 344 nomes, ele decidiu, juntamente com dona Maria, que o restaurante se chamaria Ostravagância. Já no primeiro verão, o Ostravagância ficou badaladíssimo. Porque servia bons pratos, oferecia um bom serviço, tinha boa localização, estacionamento próprio e aceitava todos os cartões de crédito. Mas, principalmente, por causa do nome. As pessoas diziam "vamos fazer uma Ostravagância hoje?" não só quando iam jantar lá, mas sempre que ia fazer uma extravagância qualquer. O nome do restaurante virou gíria local.
Depois teve o SorriDente, o consultório dentário do tio, e bicho-grilo, a petshop da prima que morava na Lagoa da Conceição.

Ele tem o dom.

Dizia a mãe, orgulhosa. O pai, por sua vez, havia desenvolvido o hábito de prestar atenção nos nomes de tudo que era estabelecimento. Sempre botando defeito, é claro. Esses caras são ruins de nome! - dizia seu Osvaldo. Com apoio total de seus progenitores, Valdinho começou a se convencer de que realmente era bom naquilo. E se ele era mesmo bom, por que não reverter isso em dinheiro, ao invés de ficar criando nomes só por prazer?

Prazer e dinheiro
Jogador de futebol, cineasta, prostitutas. É, são poucas as profissões que conseguem aliar prazer ao dinheiro. Neste caso, Marivaldo também era um privilegiado. Ele abriu uma empresa, criou um site, começou a ganhar cliente após cliente, criou nomes para empresas até em inglês, espanhol e francês. Para clientes de outros países, Marivaldo cobrava em dólares. Em poucos anos, a empresa se consolidou, até porque, talvez fosse a única no mundo especializada em criar nomes.

As mulheres. Ah, essas mulheres.

Juntamente com o sucesso da empresa, vieram as mulheres. Se existem as maria-chuteiras, porque não existiriam marias-criadores-de-nomes. E foram muitas. Mas enfim, o dinheiro e o carro importado haviam transformado Marivaldo num cara boa pinta, ele começou a ter maior facilidade em arranjar namoradinhas. Milena foi uma delas. Que, em pouco mais de 3 meses de namoro, se encarregou de "esquecer" de tomar anticoncepcional, dando origem a um bebê que, às XX semanas, foi diagnosticado que seria uma pequena herdeira. Marivaldo encarou o imprevisto com tranquilidade, pois além de ser apaixonado por Milena, ele tinha plenas condições financeiras de sustentar suas duas princesas. Pois bem. Restavam ainda XX semanas para o nascimento do bebê. E essas XX semanas eram como uma contagem regressiva do tempo que restava para Marivaldo escolher o nome da filha. Ele comprou livros, pesquisou nomes das mais diversas origens de todos os cantos do mundo, consultou amigos, pensou e pensou exaustivamente, chegando a passar noites em claro. Faltavam poucos dias para nascer a menina e o Marivaldo ainda estava em dúvida entre Maria Joana ou Giulia. Numa dessas últimas noites que ele passava em claro tentando decidir o nome, Milena entrou em traballho de parto. Contração vai, contração vem, estoura a bolsa, o táxi voa pro hospital, entra no bloco cirúrgico, os holofotes se acendem, segura a mão aqui, faz repiração cachorrinho ali, quando vê - tcharam! nasce a criança. Lógico que nessas poucas horas o nosso Valdinho não conseguiu pensar mais em nomes, muiito menos decidir por um deles.
- É um menino! Grita o pediatra surpreso e, ao mesmo tempo, alegre.
Não havia prazo e o briefing tinha mudado completamente. Nenhum daquela lista de 259 nomes servia àquele menino. E inventar agora seria loucura.

- Como?
- Marivaldo. Neto de Maria e Osvaldo. Marivaldo de Oliveira dos Santos Barcelos Júnior.
- Barcelos com um ou dois éles?
- Tanto faz. Só vão chamar ele de Júnior mesmo.