Tuesday, August 09, 2005

ui
o doador
acaba com a dor
sem doar
a própria dor
A cadeira voou como feno exatamente no momento em que ele ia criar coragem. Coragem para se declarar, pedir a moça em namoro, coragem para lhe tascar um beijo sem pedir. Pronto. Quando ele finalmente ia criar coragem, o vento se fez virar assunto. Olha o guarda-sol! Pega o meu boné! Segura a canga! Cuidado a garrafa que caiu no chão! Vamos entrar! Tudo uma questão de timing. Se ele tivesse tomado uma atitude antes, se ele tivesse entrado no assunto antes, se ela tivesse dado bola pra ele antes. Antes que o timing fizesse o vento mudar de direção.

Tuesday, August 02, 2005

E TUDO ISSO É MEU
Meu cabelo é loiro
Minha pele, amarela
Minha língua é lusitana
Meu sotaque, italiano
Minha origem é tupi-guarani
Meu sangue, espanhol
Minha sombra é negra
Sobre o meu chão, que é Brasil
O QUE OS NOMES CARREGAM
Ao primeiro raio de sol no horizonte, quando o céu ainda é cor de rosa e ainda se enxerga uma centena de estrelas que insistem em brilhar, lá está ele, acordado, assobiando como um sabiá. O caminho da roça suas botas já sabem de cor: um pé na frente do outro, despenteando o capim recém molhado pelas lágrimas que a noite derramou ao se despedir do vilarejo. Hoje, assim como ontem, há muito milho a ser colhido. Depois do milho, há muita vaca a ser ordenhada. Há muito gado a ser alimentado. E há muitas hortaliças a serem plantadas. E assim era a vida no campo todo o santo dia. De segunda a segunda, inclusive em feriados e dias santos. Na fazenda dos Cavalcante, calendário não tinha serventia. Porque todo dia era dia de trabalho. A última vez que se soube que alguém havia usado o calendário, foi Dona Sebastiana, que batizou seu filho caçula com o nome do que ela mais queria na vida: Domingos. Domingos Cavalcante, o menino que cresceu e virou homem tendo dia de descanso só no nome.