Monday, January 24, 2005

- Entra.
Ele quase não acreditou mas, antes que ela mudasse de idéia, olhando para o chão de parquet, entrou porta adentro. Quase não acreditou porque há exatos três meses, era ele quem havia expulsado Samantha do seu Escort verde.
- Desce. Não tô brincando. Desce POR FAVOR.
Sem saber se por obediência, medo, ódio ou culpa, ela desceu do carro. E eles nunca mais se viram. Não se telefonaram. Não trocaram emails. Por sorte ou azar, também não se cruzaram nas ruas. Talvez porque ambos evitassem frenquentar ou andar por lugares de costume na época em que estavam juntos.
Marcos pôs no lixo todas as cartas de amor, todas as fotos e todos os presentes que tinha ganhado de Samantha. Eram lembranças acumuladas durante longos três anos e oito meses de namoro. Nem o peixinho beta que havia ganho há dois meses foi poupado. Foi dispensado pela descarga do banheiro. E assim foi. Conforme ele ia se lembrando das coisas que lembravam Samantha, ele ia jogando fora, uma a uma. Até que se lembrou do bom e velho Escort verde, parceiro de tantas viagens, tantas idas à praia e de passeios de finais de semana ensolarados na cidade. Mas, ao mesmo tempo, o carro era o cenário da cena do "desce". Não pôs no lixo, mas colocou-o a venda. Por um preço módico. Quase dado. De tão barato, as pessoas desconfiavam e o carro custou a ser vendido. Então parecia não restar mais nada.
De carro novo, ele seguiu rumo à casa de Samantha. Ela abriu a porta e disse:
- Entra.
Quieto e olhando para o chão de parquet, ele entrou e sentou-se no velho sofá de couro. Quieta, de joelhos e de frente para ele, ela ficou o observando.
- Fala. Disse ela.
- Pensei que você não fosse abrir a porta pra mim.
- Eu também. Mas é que não ia adiantar eu te deixar do lado de fora. Se você não sai nunca de dentro de mim.

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