Monday, January 31, 2005

mais uma notícia para o jornal das pequenas coisas (www.ritinha.net). será que a editora vai aprovar?

BRUNO E O CASO DOS POTINHOS DE PLÁSTICO.
Um dia Bruno cansou de viajar diariamente uma hora e meia para ir ao trabalho e resolveu alugar um apartamento na capital. Mais precisamente um JK de 30m². Um pedaço de lar suficiente para mudar por completo o seu dia-a-dia. Novos vizinhos, 3 horas a mais de sono todo dia, possibilidade de se divertir na cidade sem ter horário para pegar o último ônibus para a pacata cidade de Estância Velha. Ele ficaria então perto de tudo, principalmente da felicidade - como diria um anúncio de empreendimento imobiliário.

E a felicidade começou a bater à sua porta pouco a pouco. Cada dia ele ia descobrindo coisas novas, as facilidades de estar morando no novo apartamento, as vantagens e responsabilidades de morar sozinho, novas preocupações, contas a pagar, novas vizinhas. Enfim, toda novidade, fosse ela ruim ou boa, era vista como uma nova experiência.

Semanas depois de se mudar, quando a casa já estava mais ou menos arrumada, Bruno convidou um pequeno grupo de amigos para oficializar a inauguração - somente quatro pessoas, para que não ficassem desconfortáveis no pequeno JK.

Foi quando sua amiga (qual era mesmo o nome dela?) o presenteou com dois potinhos de plástico. Agora tens tua própria fiambreria - disse ela. Porque no Rio Grande do Sul, chamam o setor de frios do supermercado de fiambreria, palavra emprestada do castelhano que, ao que tudo indica, nunca será devolvida.
O da tampa vermelha é para presunto. E o da tampa amarela, para queijos. Não vai usar errado, viu? recomendou a moça. Sem dar muita importância, ele disse que sim com a cabeça, levantando a sobrancelha e sorrindo.

Na manhã seguinte, Bruno acordou no mesmo horário de sempre, tomou banho e foi tomar café. Foi quando os potinhos começaram a fazer muito sentido. Foi quando ele começou a conhecer todos os maravilhosos benefícios que os potinhos proporcionavam.
- O queijo e o presunto agora não ficavam mais no pacotinho plástico do supermercado que, até então, ele abria de um dos lados e tinha que enfiar a mão com certa dificuldade para sacar uma fatia.
- O queijo, que às vezes vinha com as fatias grudadas demais umas nas outras, agora era muito mais fácil de ser separado.
- As fatias de presunto, maiores e retangulares, agora podiam ser cortadas exatamente do tamanho do pão - sem tirar do potinho. E não parou por aí.
- Os frios passaram a durar mais dias com o mesmo sabor e a mesma qualidade de quando foram comprados.
- Os queijos não ficavam mais com as beiradas ressecadas com o tempo. E sabe como é, durabilidade é um quesito importantíssimo na casa de pessoas solteiras.

Enfim, os potinhos de plástico mudaram as manhãs de Bruno, fazendo com que ele chegasse no trabalho com um humor nunca antes visto.
Tá apaixonado - comentou a tia do café.

Monday, January 24, 2005

- Entra.
Ele quase não acreditou mas, antes que ela mudasse de idéia, olhando para o chão de parquet, entrou porta adentro. Quase não acreditou porque há exatos três meses, era ele quem havia expulsado Samantha do seu Escort verde.
- Desce. Não tô brincando. Desce POR FAVOR.
Sem saber se por obediência, medo, ódio ou culpa, ela desceu do carro. E eles nunca mais se viram. Não se telefonaram. Não trocaram emails. Por sorte ou azar, também não se cruzaram nas ruas. Talvez porque ambos evitassem frenquentar ou andar por lugares de costume na época em que estavam juntos.
Marcos pôs no lixo todas as cartas de amor, todas as fotos e todos os presentes que tinha ganhado de Samantha. Eram lembranças acumuladas durante longos três anos e oito meses de namoro. Nem o peixinho beta que havia ganho há dois meses foi poupado. Foi dispensado pela descarga do banheiro. E assim foi. Conforme ele ia se lembrando das coisas que lembravam Samantha, ele ia jogando fora, uma a uma. Até que se lembrou do bom e velho Escort verde, parceiro de tantas viagens, tantas idas à praia e de passeios de finais de semana ensolarados na cidade. Mas, ao mesmo tempo, o carro era o cenário da cena do "desce". Não pôs no lixo, mas colocou-o a venda. Por um preço módico. Quase dado. De tão barato, as pessoas desconfiavam e o carro custou a ser vendido. Então parecia não restar mais nada.
De carro novo, ele seguiu rumo à casa de Samantha. Ela abriu a porta e disse:
- Entra.
Quieto e olhando para o chão de parquet, ele entrou e sentou-se no velho sofá de couro. Quieta, de joelhos e de frente para ele, ela ficou o observando.
- Fala. Disse ela.
- Pensei que você não fosse abrir a porta pra mim.
- Eu também. Mas é que não ia adiantar eu te deixar do lado de fora. Se você não sai nunca de dentro de mim.

Friday, January 21, 2005

Então eu vou tentar escrever para o jornal das pequenas coisas que a Ritinha tá fazendo (www.ritinha.net). E como uma primeira tentativa de noticiar pequenas coisas, escrevi sobre uma foto que eu tirei do meu amigo Gus sentado ao lado de um cão vira-latas na beira da praia. Imaginem e leiam (até pq eu nao sei postar fotos aqui!).

O encontro entre Gus Bozzetti e o cão desconhecido.
Aconteceu no último domingo, dia 10 o tão inesperado encontro entre dois antigos desconhecidos. De um lado, Gus Bozzetti, que embora seja cidadão do bem, é conhecido por odiar todo e qualquer tipo de animal de estimação. De outro, o cão vira-latas com aparência de labrador, totalmente desconhecido dos turistas, mas figura já tradicional do balneário de Garopaba, em Santa Catarina. Gus chegou pontualmente às 17 horas e 38 minutos, momento em que o sol começava a se pôr, aquecendo com cuidado as suas costas ainda sem bronze. O cão desconhecido chegou logo depois. Mas como sua visita não fora programada, não houve expectativas nem imprensa o aguardando no local. Chegou de mansinho, sentou-se ao lado de Gus, e ambos ficaram perfilados, com seus narizes apontando para o mar, na linha do horizonte. Depois do momento em que a imagem de ambos ficou registrada para a posteridade (foto acima), o cão ficou conhecido como "o cachorro do Gus". Porém, após o encontro, que durou cerca de dez minutos, o cão levantou-se, pôs-se de quatro e tomou seu próprio rumo para voltar a ser o que ele sempre foi - o cachorro da rua.