Thursday, December 16, 2004

JAN-KEN-PÔ
Papel, tesoura ou pedra. É o par ou impar dos japoneses.

Tesoura
O que seria apenas mais um ingênuo ítem do estojo escolar pode se transformar numa perigosa arma. Já matou até atriz de novela. Que inspirou meninas a tentarem assasssinar seus meninos na cama. Tesoura pontuda, tesoura afiada, instrumento muito útil nas mãos de quem tem habilidade. Fatal quando nas mãos de mal intencionados. Logo, tesouras são como palavras. Tesoura corta o papel. Mas jamais vence a pedra.

Papel
Papel de embrulho, papel de carta, de uma carta de amor. Papel também é sinônimo de personagem. Não me faça fazer papel de palhaço. Nem papel de bobo. Papel é representação. É tradução do significado e do sentido de tudo. Colocar no papel é planejar. Sair do papel, concluir.
Papel embrulha, disfarça e esconde a robustez e a feiúra da pedra. Papel pode ser violentamente partido ao meio, bem como moldado pela tesoura.

Pedra
O único elemento do jogo que não é feito pelo homem. A pedra já está ali, há milhares de anos, paradinha. A pedra é dura, robusta, mais forte que o homem. Pedra faz fogo. Pedra machuca. Pedra é instinto. O instinto é mais forte do que o nosso consciente, nos faz perder o controle. A pedra deixa a tesoura sem fio e até mesmo cheia de dentes. Já a relação com o papel, essa é bem diferente. No jogo, a pedra perde para o papel. Perde no sentido de que com o papel, o homem pode dar um novo significado a uma pedrinha qualquer. Uma pedrinha transparente faz nada menos do que papel de diamente.

Enfim, esse é um joguinho complicado demais pra nós dois. Porque às vezes, você usa papel demais nos embrulhos. Às vezes, eu não consigo deixar de jogar uma pedra no seu coração. E me dou muito mal, assim como quando eu tinha 2 anos e joguei uma pedra num cachorro e levei 4 pontos no canto da boca. Às vezes, você molda meu papel com sua tesoura do Mickey (que só você tem) e por outras, você pega aquela tesoura de costura e crava nas minhas costas.
Aí eu quero mais é encontrar alguém que jogue par ou ímpar. É um e dois e nunca dá empate.

Monday, December 13, 2004

QUEM É?

- abre a porta, porra! (tum! tum! tum!)
Olho pelo olho mágico e vejo um cara grande com duas loiras trintonas. Não conheço nenhum deles. Seriam vizinhos novos?
- quem tu é?

- abre a porta, porra! (tum! tum! tum!)
Olho de novo pelo olho mágico. Não conheço mesmo. Não posso abrir a porta de jeito nenhum.
- não te conheço!

- abre! abre! (tum! tum! tum!)
- sai daí senão eu vou chamar a polícia, caralho!
- abre duma vez, ô merda!
- só se tu apertar a campainha!
- triiiiiiiiim
Então abro a porta rapidamente, dou um pulo para trás e com a respiração ofegante, o corpo já todo suado, olho para o relógio - são 7:45, como todo os dias, de segunda a sexta.


Sunday, December 12, 2004

BACK TO THE 80's
Quando se deu por conta, ele estava pelado. No meio da rodinha, dançando feito louco. Olhou para si mesmo de cima a baixo, conferindo as peças que lhe faltavam. E ele estava mesmo sem camisa, sem calças, sem cuecas, sem tênis. Fez de conta que não havia nada de errado e continuou a dançar, desta vez observando a cara das pessoas que dançavam Electricity, do OMD. Elas dançavam todas no mesmo passo, no mesmo pulinho e sorrindo muito.
Mas ninguém ria das suas vergonhas, todas expostas, todas desvestidas de Levi's, de Adidas e de Triton. Afinal, era ele e nada mais. Aquele ser nu era ele de verdade, só conteúdo, sem embalagens nem rótulos.
Quando se deu conta disso, ele voltou a dançar loucamente, fechou os olhos e retornou de volta ao sonho.

Wednesday, December 08, 2004

EM BRASILIA, DEZENOVE HORAS
Assim como todos os finais de tarde, o de hoje também foi péssimo para ele. Era o sol começar a se inclinar, ganhando cor no lugar da luz branca e forte, que ele começava a ficar deprimido. Também pudera, seu pai morrera num final de tarde quando ele tinha apenas 11 anos de idade. Sua primeira namorada o deixou naquele domingo de sol, justamente quando o sol estava se pondo. Ela deu um beijo no seu rosto, deu as costas e caminhou depressa, para desaparecer para sempre em meio à multidão. Hoje, às dezenove horas e cinquenta minutos do horário de verão, ele parou num semáforo, ficou observando os meninos pobres, fazendo seus malabares com bolinhas velhas de tênis. Antes que o sinal abrisse, um dos meninos veio recolher a gorjeta e ele respondeu com desinteresse que não. Que não tinha nenhuma moeda, embora seu bolso direito estivesse com uma meia dúzia delas. Antes de abrir o sinal, dois sujeitos de moto páram do seu lado, um deles aponta a arma pra sua cabeça e manda descer. Ele obedece. E começa a caminhar na mesma direção em que a terra gira, para que nunca mais encontre um entardecer.