Wednesday, November 24, 2004

DE VOLTA PRA CASA
Ela preferiu bater na porta a apertar o botão da campainha. Bateu com força, com os ossos dos próprios dedos na velha porta de madeira. Só podia ser ela para bater na porta desse jeito. Ninguém mais. Todas as outras pessoas que vêm aqui em casa apertam burocraticamente três vezes aquela campainha que soa um blin-blón de falso sino. Então eu nem precisei olhar pelo olho mágico pra saber quem era. Fui abrindo a porta direto e, assim como eu a abri automaticamente, ela abriu sua boca sem hesitar, jogando-se em direção à minha. Meus lábios, minha língua e minhas mãos sentiram o calor e a umidade do seu corpo trêmulo e, mais do que tudo, sentiram a sensação de estar voltando pra casa. E ela estava voltando. Mas dessa vez, para partir comigo. Ela me disse para eu fazer as malas depressa porque não podíamos adiar esse sonho mais uma vez. Com as duas mãos, empurrei-a para fora e bati a porta, deixando do lado de dentro da casa tudo o que era passado.

Friday, November 12, 2004

TROCO UM SENTIDO POR UMA HABILIDADE
Um belo dia, Deus achou que os seres humanos estavam desenvolvidos demais, com poderes demais. E assim acabariam auto-exterminando a raça humana com guerras e conflitos cada vez mais poderosos. Resolveu assim, subtrair um dos cinco sentidos de cada pessoa. O lado bom é que era possível escolher qual o sentido se abriria mão a partir daquele dia.
O primeiro, adiantando-se aos demais, levantou o dedo e foi pedindo.
- Senhor, eu abro mão do meu olfato, pois poderei viver tranquilamente sem sentir odores, principalmente os ruins.
O segundo foi um gordo de 132 quilos.
- Senhor, eu abro mão do meu paladar. Pois assim deixarei de sentir o sabor das comidas e, logo, passarei a comer menos. O que, no momento é o que eu mais preciso.
O próximo escolheu a visão. Uma moça de meia idade.
- Senhor, abro mão da minha visão. Minha vida sempre foi feia. Cresci numa cidade imunda, em meio a traficantes e mendigos. Sou uma mulher feia que só consegue homens feios. Se eu viver sem enxergar, talvez a minha vida passe a ser como um eterno sonho.
O penúltimo pensou rápido e decidiu pela audição.
- Senhor, optarei pela audição. Não sou tão ligado à musica. Ademais, estão construindo um prédio ao lado da minha casa há 2 anos e eu não aguento mais o barulho da obra que começa às 7 da manhã.
O último, teve de escolher o tato.
- Senhor, ficarei com o tato, pois não tenho outra opção. E quem não tem outra opção já optou.
Foi quando apareceu o sexto indivíduo.
- Senhor, eu não quero abrir mão de nenhum desses sentidos citados anteriormente. Eu quero ser MUDO. E provavelmente estas serão as minhas últimas palavras que eu vou proferir. Talvez por isso, a minha justificativa seja a mais longa de todas. Mas depois eu ficarei quieto para sempre, o Senhor sabe. Fiquei quieto aqui no meu canto, observando as outras pessoas e suas respectivas justificativas. E, digamos que dei sorte por eles terem feito suas escolhas tal qual o senhor viu. Porque eu perderei a fala. Mas continuarei podendo ver a beleza de um nascer do sol na beira da praia, poderei sentir o perfume das flores e das mulheres, poderei sentir o sabor de um bom prato e do sorvete de pistache que eu tanto gosto, e tudo isso ao som da natureza ou da trilha que estiver tocando em cada um desses momentos.
Enfim, vou optar por manter todos os sentidos que me fazem absorver tudo o que está ao meu redor. Com o direito de ficar quieto, guardando todas essas preciosidades dentro de mim.
- Mais alguma coisa?
- ...