Friday, October 01, 2004

BOY DOS BONS
Menino André arranjou emprego de office-boy. Desses que ainda andam de ônibus para entregar documentos com recados decorados.
- Esse envelope é pro seu Adamastor, essa nota é pra moça do financeiro assinar as três vias e me devolver a primeira via. Ah, e o pessoal lá da firma mandou te dar os parabéns pelo dia da secretária. Parabéns.
Emprego cada vez mais raro esse, depois que inventaram os motoboys. Motoboys são velozes, porém impessoais. Primeiro, porque eles são uma espécie de centauro, cabeça de homem e corpo de cavalo que, ao invés de quatro patas, tem duas rodas. Segundo, porque não são moleques. Perder tempo com fliperama nem pensar. É uma viagem a menos no dia.
No primeiro mês do seu primeiro emprego, menino André ia pra cima e pra baixo fazendo acrobacias com a pasta e driblando a multidão no centro da cidade. Para completar o estereótipo de office-boy, só lhe faltava um importante componente: o walkman.
Enquanto as histórias dele não tinham trilha sonora, ele brincava de tentar adivinhar os pensamentos das pessoas.
1) Senhora gorda, olhando a vitrine (...esse não, esse também não. É melhor eu sair que tá vindo o vendedor.)
2) Cigana (...vem vindo, vem vindo, esse guri eu pego! vou pedir um cigarro.)
3) Gari varrendo a rua (quanto toquinho de cigarro, como essa gente fuma!)
4) Senhor de terno andando apressado, olha pro relógio (duas e vinte, vou ter que arranjar uma desculpa pro atraso na reunião. Já sei, vou dizer que o túnel tava trancado)
E assim ele passava o dia. Pensando só nos pensamentos dos outros. Porque ele tinha certeza de que os seus pensamentos seriam todos sobre Karina. E ele não queria mais pensar nela. Nunca mais.

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