Wednesday, October 27, 2004

SOBRE TERREMOTOS
Depois da tragédia, depois que os tremores cessam de vez, é hora de voltar pra casa pra ver o que restou. A luminária, de tanto balançar como um pêndulo, bateu no teto e ficou só com as partes de metal penduradas no fio quase desencapado. Os quadros com as fotos das nossas férias caíram todos no chão e, coincidência ou não, milagre ou não, a imagem de Nossa Senhora continua fixa naquela ponta torta do prego fincado na parede.

Depois da tragédia, a gente começa a se precaver, a desenvolver técnicas para arrumar as coisas de tal forma que, no próximo abalo sísmico, a maior quantidade de coisas continue nos seus devidos lugares. É assim que o homem tem evoluído por através dos tempos, obtendo conhecimentos, todos baseados na observação. Junta-se as cadeiras tombadas, varre-se os cacos de vidro dos quadros e abajures. Fixa-se as coisas na parede com o dobro de pregos, com parafusos, até.

E assim a gente vai aprendendo. Em substituição às peças quebradas, compramos similares de acrílico e borracha. É menos bonito, porém inquebrável. Menos frágil. Mas nada disso parece adiantar. Porque a impressão que se tem é que o próximo terremoto vai ser ainda mais forte. E, por mais que eu aprenda, quando você aparece, eu me sinto o mais despreparado de todos.

Tuesday, October 26, 2004

PORQUÊ É TUDO JUNTO E SEM ACENTO OU COM ACENTO E SEPARADO? AH, ISSO NÃO IMPORTA.
Meu Deus, por quê? Não me venha perguntar o porquê, agora que tudo está acabado. É como perguntar por que morreu a flor do girassol. Falta de água, talvez. Sol em demasia, quem sabe. O fato é que ela morreu. Não há mais o que fazer a não ser plantar outra semente, regá-la e fazê-la crescer forte, amarela e linda. Talvez tenhamos que plantar outra. Talvez sim, talvez não.

A gente tem essa mania de tentar entender o porquê das coisas que não nos agradam. Das coisas que nos ferem. Mas a maioria delas não têm explicação, é assim mesmo, é perda de tempo tentar encontrar uma resposta. Ou várias respostas. Porque resposta nada mais é do que reação. E a reação só pode estar em nós.

O porquê é passado. Agora, pense rápido numa resposta. E me alcance logo a pá, que eu vou começar a plantar cravos, lírios e azaléias no meu jardim.

Friday, October 22, 2004

O BOM FILHO
Da última vez eu prometi pra mim mesmo que se acontecesse de novo, estaria tudo acabado. E aconteceu. Então só me resta dar um fim nisso tudo. Acabar de vez com esse relacionamento sustentado a brigas e dias de reaproximação, à base do sobe e desce. Sendo que, você sabe, a subida sempre é mais demorada e exige muito mais esforço.

Cansei de descer. Não sei se tenho forças para subir de novo, sabendo que a gente vai cair de novo e machucar mais uma parte dos nossos corpos. Já não tenho mais dentes para sorrir, e de nada adianta lhe estender uma mão quebrada. Minhas costas estão em total fadiga, como se carregasse um cofre cheio de areia durante todos esses últimos meses cansativos.

E nesta última queda, acabei quebrando ambas as pernas, o que me impossibilitou de subir novamente e seguir em frente com você. Vou voltar um pouco atrás, pegar algumas coisas que acabei esquecendo pelo caminho e tomar o rumo de casa.

- Mãe, voltei. Agora estou só novamente.
- Não fique triste, filho. Eu senti que você estava voltando. Você parece cansado. Vai tomar um banho que enquanto isso eu preparo uma sopa.
- Não precisa não, mãe. Eu só quero um abraço.
O TOCADOR DE TROMPA
Há exatos trinta e sete anos, seu Aparício tocava trompa naquela orquestra. E para quem toca trompa, é inviável, totalmente impossível tocar sorrindo, mesmo que se queira muito. Primeiro porque o instrumento se toca com a boca e, segundo, porque é preciso fazer muita, mas muita força para se emitir algum som daquele enorme instrumento. E foi justamente por isso que ele havia escolhido a trompa. Dessa forma, ele disfarçava toda a sua infelicidade de ter sido proibido de tocar seu instrumento predileto desde criança, o violino. E não foi porque ele não soubesse tocar, mas simplesmente porque ficaria esteticamente incorreto a orquestra inteira apontar o violino para a esquerda, enquanto o nosso violinista canhoto apontava para a direita. E assim nasceu um tocador de trompa sem paixão.

Friday, October 08, 2004

DO DIA EM QUE CHOVEU À BEÇA
Era um dia em que chovia de cima pra baixo e de baixo pra cima. Porque a chuva era tão forte que os enormes pingos batiam contra o asfalto, multiplicando-se em gotas menores que respingavam para cima.
No meio da rua deserta, ele corria por entre os pingos que vinham de todos os lados.
Uma senhora que, mesmo com seu imenso guarda-chuvas, buscava abrigo sob uma marquise de um prédio de paredes rachadas, gritava para o jovem rapaz:
- sai da chuva, menino! vai te resfriar!

O vendedor de guarda-chuvas tentou abordá-lo, sem sucesso.
- a cinco reáu o guarda-chuva automático!

Vendedores de guarda-chuvas são como ratos que habitam o centro da cidade. Com a diferença de que os ratos, ao invés da chuva, aguardam o anoitecer para saírem de suas tocas imundas. É dar um relâmpago no horizonte que logo eles aparecem, munidos de todos os tipos e modelos de guarda-chuvas.

E ele continuava a correr com os braços abertos, as mãos, o rosto e o peito voltados para o céu. Mas ele não corria para fugir da chuva. Ele corria era para alcançar a chuva que estava por desabar sempre a alguns metros à sua frente.

Friday, October 01, 2004

BOY DOS BONS
Menino André arranjou emprego de office-boy. Desses que ainda andam de ônibus para entregar documentos com recados decorados.
- Esse envelope é pro seu Adamastor, essa nota é pra moça do financeiro assinar as três vias e me devolver a primeira via. Ah, e o pessoal lá da firma mandou te dar os parabéns pelo dia da secretária. Parabéns.
Emprego cada vez mais raro esse, depois que inventaram os motoboys. Motoboys são velozes, porém impessoais. Primeiro, porque eles são uma espécie de centauro, cabeça de homem e corpo de cavalo que, ao invés de quatro patas, tem duas rodas. Segundo, porque não são moleques. Perder tempo com fliperama nem pensar. É uma viagem a menos no dia.
No primeiro mês do seu primeiro emprego, menino André ia pra cima e pra baixo fazendo acrobacias com a pasta e driblando a multidão no centro da cidade. Para completar o estereótipo de office-boy, só lhe faltava um importante componente: o walkman.
Enquanto as histórias dele não tinham trilha sonora, ele brincava de tentar adivinhar os pensamentos das pessoas.
1) Senhora gorda, olhando a vitrine (...esse não, esse também não. É melhor eu sair que tá vindo o vendedor.)
2) Cigana (...vem vindo, vem vindo, esse guri eu pego! vou pedir um cigarro.)
3) Gari varrendo a rua (quanto toquinho de cigarro, como essa gente fuma!)
4) Senhor de terno andando apressado, olha pro relógio (duas e vinte, vou ter que arranjar uma desculpa pro atraso na reunião. Já sei, vou dizer que o túnel tava trancado)
E assim ele passava o dia. Pensando só nos pensamentos dos outros. Porque ele tinha certeza de que os seus pensamentos seriam todos sobre Karina. E ele não queria mais pensar nela. Nunca mais.