Tuesday, September 21, 2004

NÃO CORRE, GURI.
Adultos não deviam proibir as crianças de correrem em hipótese alguma. Porque quando a gente corre, entre um passo e o outro, existe um precioso instante em que a gente fica com os dois pés no ar.
Hoje me dei por conta de que a minha mãe é um livro de histórias que eu devia abrir mais vezes.

A MENINA E O PAR DE TÊNIS
No tempo em que todas as crianças iam à escola calçando chinelos de palha ou tamancos de madeira feitos em casa, ela ganhou um par de tênis de lona de uma velhinha amiga da família. O detalhe é que a velhinha comprou os tênis na pressa e, sem se dar conta, levou um par de pés direitos. Em tempos de pós-guerra, mas valia dois pés do mesmo lado do que os dois descalços. E assim ela foi à escola feliz da vida, caminhando, saltitando e correndo com seus par de tênis novinho em folha. Alguns colegas a invejavam, outros riam da menina que tinha dois pés direitos. Era a menina do pé-virado. Mas ela não ligava para os comentários e, para sua alegria, na semana seguinte, a velhinha apareceu com um par de dois pés esquerdos.

A MENINA E A PLANTAÇÃO DE RETALHOS
Deu no jornal. Entrevista com as jovens que gostariam de arranjar um marido para atravessar o mundo e tentar a sorte num tal de país chamado Buradiru. Perguntaram a ela porque estaria interessada em deixar o Japão. Ela foi simples e categórica.
- Cansei dessas plantações em escadinha. Quero ir a um lugar onde se possa plantar uma só coisa, cobrindo o chão de uma só cor, até perder de vista.

O RETORNO DA MENINA
"Um dia eu quero voltar ao Japão e atravessar o país de norte a sul, só comendo as delícias de cada lugarejo que eu passar. Isso sim é matar as saudades do meu país. Talvez eu também queira visitar a escola que eu fui com meu tênis que era um par de pés direitos."

Monday, September 20, 2004

9,99999999999
ELA NUNCA FOI MISS BRASIL,
RAINHA DAS PISCINAS OU GAROTA VERÃO
MAS TEM O TIPO DE BELEZA QUE ME AGRADA

ELA É CHEIA DE ADJETIVOS, PREDICADOS E VIRTUDES
MAS ESTÁ LONGE DE SER A MULHER PERFEITA

O LADO BOM DISSO
É SABER QUE SEMPRE EXISTE A POSSIBILIDADE
D'ELA FICAR AINDA MELHOR

PORQUE NÃO SE PODE MELHORAR
O QUE JÁ É PERFEITO.

Wednesday, September 15, 2004

TEM VAGA?
Naquele escritório é que as pessoas eram felizes. Não que passassem o dia dando gargalhadas, tampouco porque ganhavam salários milionários. O sorriso no rosto de todos os funcionários chegava a ser irreal. Uma cena um tanto quanto insólita. Ninguém de testa franzida. Ninguém dando murros na mesa. Só sorrisos. O dia todo, todos os dias. No geral, um escritório como outro qualquer, desses que têm paredes brancas, ramais telefônicos e divisórias à meia altura. A única diferença é que lá, cada letra do alfabeto correspondia a uma nota musical. E cada vez que alguém começava a datilografar, era um membro a mais que se unia à orquestra de pianos.
SOM PORTÁTIL
Para onde quer que fosse, o menino levava sua caixinha de música. Que na verdade não tinha mais uma caixinha que a envolvia. Era só aquele amontoado de engrenagens se movendo em direções contrárias para tocar sempre a mesma música. O menino cresceu, saiu de casa e foi morar na cidade grande, onde os prédios e as pessoas só se abraçam através das suas sombras. Arranjou emprego de homem sério. Porque como a mãe dele dizia, homens sérios usam paletó. No bolso direito, a velha caixinha de música com a mola já desgastada pelo tempo e pelo uso. E quanto mais lenta ficava a música, mais ele sentia falta da bailarina que havia perdido anos atrás.

Monday, September 13, 2004

SENHORA SABEDORIA
Dona Inocência não sabia ler nem escrever. Amigos, tinha poucos. Durante os seus mais de 80 anos de vida, muita coisa havia mudado no mundo. Dizem que o homem pisou na lua. E que inventaram a televisão. Dizem até que já era possível salvar alguém doente do coração com o coração de outra pessoa já morta. Por mais distante que fosse da sua realidade, sendo verdade, ela acreditava. Não era preciso mais do que um minuto de conversa pra ela perceber se a pessoa estava mentindo ou falando a verdade. Porque ela ouvia o que a boca pronunciava, mas prestava atenção mesmo era no que os olhos da pessoa tinham a dizer. Dona Inocência era daquelas pessoas que dizem eu te amo com os olhos.

Monday, September 06, 2004

NOVÍSSIMAS FLORES ASTRAIS
Não era apenas uma estrela cadente. Eram muitas. Uma após a outra, depois muitas ao mesmo tempo, como fogos de artifício na estratosfera. O telejornal anunciara durante a semana inteira que por volta das 21 horas do dia 5 de setembro de 2004 ocorreria o fenômeno que só acontecia uma vez a cada 5 bilhões de anos: o tão aguardado e jamais visto reordenamento das estrelas. Durante exatos cinco segundos, o céu ficou repleto de vagalumes no cio, enlouquecidos com a chegada da primavera no hemisfério sul. Passados os cinco segundos do raríssimo fenômeno, lá estavam elas novamente, paradinhas, cada uma com o seu próprio brilho, porém compondo novas formações. Nunca mais seria possível ver as três marias juntas. O cruzeiro do sul se dividiu em duas partes, juntando-se com algumas estrelas do cão maior.
E foi assim, simples. Elas se deram adeus, partiram cada uma para o seu lado, tomando diferentes rumos em suas vidas. Em cinco segundos apenas.

Friday, September 03, 2004

DAS COISAS QUE SÃO SÓ MINHAS
recolha tudo que tem na sua casa
e me devolva de uma só vez
quero de volta o meu blusão puído
minha caneca, minha escova de dentes
minhas meias soquete e meus discos de rock

só não me peça nada de volta
porque o pouco que ainda me resta
dos bens que tínhamos em comum
são as palavras que roubei da sua boca
para construir a história de nós dois.