Monday, August 16, 2004

TRINTA
Então ele deitou-se e desistiu de viver. Por exatos trinta anos. Quando acordou, havia teia e mofo pelas paredes, o cheiro lembrava bibliotecas, lojas de antiguidades, porão de igreja. Cheiro de lugares que abrigam muita coisa velha. E em desuso. Abriu os olhos. A imagem não era tão nítida quanto há trinta anos. Mesmo em repouso total, os olhos não captavam mais as nuances do papel de parede, muito menos as bolinhas de cinamomo com a mesma precisão de outrora.

Virou-se para o lado esquerdo, sentou-se à borda da cama. As unhas dos seus pés estavam enormes e, as pernas, com os músculos atrofiados. O cortador de unhas ainda tinha fio suficiente para cortar bem todas as unhas, exceto a do dedão do pé.

Calçou o par de sapatos empoeirado, que ficara todo esse tempo o vigiando, aguardando o dia em que seu dono acordasse e assim fossem juntos passear pela cidade. Caminhou a passos lentos, atravessou a praça onde aposentados jogavam dominó. Os jogadores de dominó não haviam mudado. Há trinta anos, eles eram velhinhos e, mesmo depois desse tempo todo, eles continuavam velhinhos.

Sentou-se no banco do engraxate e deixou que as mãos rápidas do menino sujo devolvessem o brilho aos sapatos. Agora sim ele se sentia melhor, embora solitário. Há trinta anos ele dormiu. Com uma mulher que não amava.

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