Friday, August 06, 2004

SOBRE O CÉU SOBRE O MAR
Maria do Socorro tinha 37 anos e nunca tinha visto o mar. Sua primeira vez foi na pacata praia de Santana da Conceição. Lá não havia ondas. Nem turistas, em se tratando de uma fria tarde do último sábado de agosto. Naquela grande enseada formava-se um espelho d'água liso como calçada de cimento fresco. Maria do Socorro não quis entrar na água pra não estragar aquela superfície lisinha com suas pegadas. Feias as pegadas. Pegadas de quem tem dedos tortos e rachaduras na sola grossa do pé. Então ela ficou ali sentada, contemplando tudo aquilo que pouco se mexia. E notou que o céu e a água eram muito parecidos. Dois azuis idênticos, separados pela linha do horizonte. Não sabia se o mar é que imitava o céu ou o céu é que queria fundir-se à terra, pegando uma carona com o sol que mergulhava na água.
Como o sol mergulhou e foi se apagando, ela concluiu que a água era mais forte que o fogo. E que todos os dias, a partir dali, seriam noites.

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