Sunday, August 01, 2004

SOBRE NOMES
Bagdad Café é o nome do estabelecimento. Porque o dono decidiu que esse seria o nome. Sem acento no A e com D mudo no fim. Provavelmente em homenagem ao clássico do cinema. Mas, nunca se sabe. Pode ser que o dono tenha viajado em lua-de-mel para o Iraque. Ou que ele seja simpatizante de Saddam. Ou de George W. Bush. Enfim, por algum motivo o nome está lá, no neon vermelho que faz um zunido de abelha.

Então eu peço um expresso duplo. Expresso porque o café é feito na hora, e duplo, porque ele tem o dobro da quantidade de um expresso comum. E assim as coisas vão ganhando nomes, porque algum dia alguém inventa alguma coisa nova e precisa chamá-la por um nome. De preferência, um nome que faça sentido, que você o associe ao sujeito da frase.

Quando eu nasci, por exemplo, minha mãe olhou para mim e pensou - que nome eu vou dar a esse sujeito? E viu que, por eu ser o segundo filho homem, eu representava uma segunda felicidade à família. E me pôs um nome que significasse "segunda felicidade".

A mesa que eu escolhi fica na calçada, ao ar livre, e o garçom vem com o meu expresso duplo, uma água com gás e um biscoitinho amanteigado com um pedacinho de goiabada no meio (O detalhe é que eu nunca sei qual a ordem correta - se eu como a bolachinha antes de tudo, tomo um golinho de água e depois vou para o café. Ou se eu tomo o café, como a bolachinha e, depois de tudo, tomo a água.).
Gosto de sentar onde as pessoas passam. Elas passam na frente dos meus olhos e assim, fazem parte de alguns míseros segundos da minha vida. Claro, a maioria das milhares de pessoas que eu já cruzei na rua nem sabem que eu existo e eu vou esquecer que elas existem nos próximos segundos.

Mas algumas delas eu fico as observando porque algo me chama a atenção. A beleza, o sorriso, o olhar triste, a pele enrugada, o cabelo pintado, o tênis colorido, o piercing no nariz, o nariz, os seios, a barriga caindo pra fora da calça. E fico viajando sobre quais seriam os seus nomes. Pessoas estranhas geralmente têm nomes estranhos. Ou elas são estranhas porque ganharam nomes estranhos de seus pais? Também fico imaginando seus apelidos. Aquele feirante, do outro lado da rua, por exemplo. É um negrão muito gordo. Quase redondo. Quase uma bola. Bolão! e, como é negro, algumas pessoas ainda devem chamá-lo de Bola Oito.

O garçom. Baixinho, cabelos crespos, tem um vasto bigode. Me lembra um jogador da seleção de 82. Tenho muita vontade de chamá-lo de Cerezo quando for pedir a conta. Mas não. Eu consigo me conter e chamo-o de "amigo", apesar de não me considerar amigo dele (se compararmos, Cerezo é até mais adequado do que Amigo). Então eu pago a conta ao Cerezo, deixo o Bagdad Café e vou caminhando em direção ao metrô.

Na entrada do metrô, há uma mulher sentada no chão, pedindo esmolas. Ela fala alguma coisa comigo mas eu não ouço nada. Tiro os fones de ouvido bem no meio de "Everlong", do Foo Fighters - e eu odeio ter que tirar os fones justo quando está tocando uma música que eu gosto na rádio. Mas eu resolvi ouvi-la porque o olhar dela parecia pedir socorro.
Enquanto o final de Everlong vaza pelos fones, ouço um resumo da vida dela em poucos segundos. A vida dela passa na minha cabeça como se fosse um clip, um medley de infelicidades, de infortúnios, de tragédias que não acabam mais. Ela me conta que está desempregada, despejada da casa que alugava, que o marido morreu de AIDS e que está grávida de cinco meses. Sente que é uma menina.

Dei a ela um real e uma fichinha de vale-transporte que tinha no bolso. Quis muito dar um nome à menina que está por nascer. Ela devia se chamar Esperança. Porque esperança é tudo o que ela precisa para continuar vivendo. Mas provavelmente, a menina será batizada de Suellen ou Kétlin, porque eu não sou nada dela para ficar dando palpites. Já ela, vai passar a fazer parte da minha vida. Porque eu vou me lembrar dessa mulher e da Esperança sempre que ouvir Everlong.

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