Saturday, August 21, 2004

SOBRE APONTADORES DE LÁPIS
Você, independente da idade que tem, invariavelmente se apaixona por alguma garota de tempos em tempos. Eu, por exemplo, sempre descobria uma nova paixão platônica quando trocava de série. Na primeira série, Cláudia Rejane Martins. Número 7 da chamada. Ela me pedia o apontador emprestado e meu coração se debatia como se tivesse um alien querendo sair do meu peito. Ah, o apontador. Chegando em casa, a primeira coisa que eu fazia era tirar o apontador do estojo. Colocava na palma da mão, procurava o perfume dela, ficava ali, olhando e pensando que aquele apontador ainda carregava algo da Cláudia Rejane.

Na segunda série eu fiz minha mãe investir num apontador novo. E se tinha alguma coisa que a minha mãe nunca se preocupou em economizar era com material escolar. Comprei um apontador duplo, daqueles que faziam dois tipos de ponta. Sucesso total. Ana Cristina Vieira Soares, número 1 na chamada, pediu meu apontador emprestado no segundo dia de aula e, a partir dali, passou a ser a número 1 também no meu coração durane todo o ano de 1983.

Mas os três meses de férias de verão me distanciavam das meninas. Sem internet, sem email, não era fácil manter o contato. Na volta às aulas de 1984, eu resolvi chutar o balde. Fui na Globo da Andradas e comprei um apontador de ferro. Apontadores de ferro impressionavam, porque além de serem bonitos, pesados e diferentes, eles nunca perdiam o fio. Depois que inventaram o apontador de ferro, todos os outros passaram a pertencer a uma outra categoria. A categoria dos desprezíveis, quase descartáveis.

Pois bem. A primeira pessoa a pedir emprestado o meu apontador de ferro foi Vagner, meu colega que sentava na carteira ao lado. Mas é óbvio que eu não me apaixonei por ele. Muito pelo contrário, fiquei com muita raiva, porque ele nem me pediu e já foi pegando pra apontar aquele maldito lápis cor-de-laranja com uma borracha na ponta. Para a minha surpresa, quando o Vagner vinha voltando do lixo, que ficava ao lado do quadro negro, Tanara, que sentava lá na frente, viu o apontador de ferro e pediu emprestado.

Tanara Lisboa de Oliveira Gusmão, cabelos loiros e ondulados, olhos azuis, pele branquíssima. Número da chamada: 23. Ela veio me devolver pessoalmente o apontador.
Foi quando percebi que, assim como o apontador de ferro, ela se diferenciava de todo o restante das meninas que eu já havia conhecido. As outras passaram a pertencer à categoria dos apontadores de plástico. Ficamos amigos. Conversávamos naqueles minutinhos antes da aula começar. A conversa entre nós fluía, apesar de eu não fazer a menor idéia de que teor ou conteúdo pudesse ter uma conversa entre duas crianças de nove anos.

Naturalmente, passamos a chegar mais cedo no colégio para aumentar o período que antecedia a aula.
A aula começava às 7:45, e nós começamos a chegar na escola às 7:30. Um dia eu cheguei às 7:10. Era inverno, estava escuro e ainda nem tinham aberto o portão da escola. Mas tudo aquilo valia a pena. E assim como um apontador de ferro, a minha paixão por Tanara foi duradoura. No ano seguinte, continuávamos mais amigos ainda. E as férias de verão, ao invés de nos distanciar, me deixou com uma tremenda saudade.

Mas na quarta série eu descobri outra coisa. Que meninas voltam diferente das férias. Tanara tinha crescido bastante, tinha começado a desenvolver os seios, ainda que minúsculos. E assim começava a ficar visível a disparidade hormonal entre meninos e meninas da mesma série. Tanara se apaixonou por Rodrigo, um cara meio mau-caráter da sexta série. Ele até já tinha repetido um ano. Foi então que eu tive a minha primeira grande desilusão amorosa. Sofri que nem um cão sem dono. Que nem uma criança perdida no setor de verduras do Zaffari Ipiranga.

Assim como eu, muita gente nesse mundo já sofreu por causa de uma garota apontador de ferro. E são elas que fazem os caras começarem a escrever poemas baratos, compor músicas românticas e de dor-de-cotovelo. E, bem ou mal, por mais que sejam ruins musicalmente, tem muita gente que se identifica com essas músicas bregas. E consomem milhões dos malditos cds de música sertaneja pagodes melosos e love songs. Às vezes chego a desconfiar que as garoras apontador de ferro são uma invenção das grandes gravadoras.

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