Friday, August 27, 2004

PEQUENA HISTORINHA DE DOIS DESCONHECIDOS
Ela enxuga o rosto com a manga do casaco que tem sua ponta mais escura por já estar completamente molhada de lágrimas. Ela o olha com um olhar de quem pergunta "Porque você está fazendo isso comigo?". Ele, cabisbaixo, repara nos detalhes das pedras decorativas da calçada, uma preta, uma branca, formando um mosaico complexo e desordenado, assim como os seus pensamentos sobre ela.
Ela grita, perguntando "por quê?". Ele respira fundo e continua no seu mundo quase autista que se resume a ele e as pedras em preto-e-branco. Parece que vai dizer algo. O ônibus arranca e eu nunca mais os vejo. Fico pensando se vai haver uma pequena história na próxima parada.

Monday, August 23, 2004

DESMEMÓRIA CURTA
soco no estômago
chute no saco
paulada na nuca

esqueci que você existe
esqueci seu telefone
esqueci a rua onde você mora

esqueci seus lindos olhos
esqueci seu cheiro depois do banho
esqueci seu sorriso de menina
ops. esqueci de te esquecer.

Saturday, August 21, 2004

VOU ALI E JÁ VOLTO
crianças correm
para todos os lados

adultos andam depressa
muitas vezes sem saber o rumo

velhinhos caminham lentamente
porque eles são os que mais têm certeza
de onde estão indo:
eles vão logo ali, dar uma morrida
e já voltam.
SOBRE APONTADORES DE LÁPIS
Você, independente da idade que tem, invariavelmente se apaixona por alguma garota de tempos em tempos. Eu, por exemplo, sempre descobria uma nova paixão platônica quando trocava de série. Na primeira série, Cláudia Rejane Martins. Número 7 da chamada. Ela me pedia o apontador emprestado e meu coração se debatia como se tivesse um alien querendo sair do meu peito. Ah, o apontador. Chegando em casa, a primeira coisa que eu fazia era tirar o apontador do estojo. Colocava na palma da mão, procurava o perfume dela, ficava ali, olhando e pensando que aquele apontador ainda carregava algo da Cláudia Rejane.

Na segunda série eu fiz minha mãe investir num apontador novo. E se tinha alguma coisa que a minha mãe nunca se preocupou em economizar era com material escolar. Comprei um apontador duplo, daqueles que faziam dois tipos de ponta. Sucesso total. Ana Cristina Vieira Soares, número 1 na chamada, pediu meu apontador emprestado no segundo dia de aula e, a partir dali, passou a ser a número 1 também no meu coração durane todo o ano de 1983.

Mas os três meses de férias de verão me distanciavam das meninas. Sem internet, sem email, não era fácil manter o contato. Na volta às aulas de 1984, eu resolvi chutar o balde. Fui na Globo da Andradas e comprei um apontador de ferro. Apontadores de ferro impressionavam, porque além de serem bonitos, pesados e diferentes, eles nunca perdiam o fio. Depois que inventaram o apontador de ferro, todos os outros passaram a pertencer a uma outra categoria. A categoria dos desprezíveis, quase descartáveis.

Pois bem. A primeira pessoa a pedir emprestado o meu apontador de ferro foi Vagner, meu colega que sentava na carteira ao lado. Mas é óbvio que eu não me apaixonei por ele. Muito pelo contrário, fiquei com muita raiva, porque ele nem me pediu e já foi pegando pra apontar aquele maldito lápis cor-de-laranja com uma borracha na ponta. Para a minha surpresa, quando o Vagner vinha voltando do lixo, que ficava ao lado do quadro negro, Tanara, que sentava lá na frente, viu o apontador de ferro e pediu emprestado.

Tanara Lisboa de Oliveira Gusmão, cabelos loiros e ondulados, olhos azuis, pele branquíssima. Número da chamada: 23. Ela veio me devolver pessoalmente o apontador.
Foi quando percebi que, assim como o apontador de ferro, ela se diferenciava de todo o restante das meninas que eu já havia conhecido. As outras passaram a pertencer à categoria dos apontadores de plástico. Ficamos amigos. Conversávamos naqueles minutinhos antes da aula começar. A conversa entre nós fluía, apesar de eu não fazer a menor idéia de que teor ou conteúdo pudesse ter uma conversa entre duas crianças de nove anos.

Naturalmente, passamos a chegar mais cedo no colégio para aumentar o período que antecedia a aula.
A aula começava às 7:45, e nós começamos a chegar na escola às 7:30. Um dia eu cheguei às 7:10. Era inverno, estava escuro e ainda nem tinham aberto o portão da escola. Mas tudo aquilo valia a pena. E assim como um apontador de ferro, a minha paixão por Tanara foi duradoura. No ano seguinte, continuávamos mais amigos ainda. E as férias de verão, ao invés de nos distanciar, me deixou com uma tremenda saudade.

Mas na quarta série eu descobri outra coisa. Que meninas voltam diferente das férias. Tanara tinha crescido bastante, tinha começado a desenvolver os seios, ainda que minúsculos. E assim começava a ficar visível a disparidade hormonal entre meninos e meninas da mesma série. Tanara se apaixonou por Rodrigo, um cara meio mau-caráter da sexta série. Ele até já tinha repetido um ano. Foi então que eu tive a minha primeira grande desilusão amorosa. Sofri que nem um cão sem dono. Que nem uma criança perdida no setor de verduras do Zaffari Ipiranga.

Assim como eu, muita gente nesse mundo já sofreu por causa de uma garota apontador de ferro. E são elas que fazem os caras começarem a escrever poemas baratos, compor músicas românticas e de dor-de-cotovelo. E, bem ou mal, por mais que sejam ruins musicalmente, tem muita gente que se identifica com essas músicas bregas. E consomem milhões dos malditos cds de música sertaneja pagodes melosos e love songs. Às vezes chego a desconfiar que as garoras apontador de ferro são uma invenção das grandes gravadoras.

Monday, August 16, 2004

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TRINTA
Então ele deitou-se e desistiu de viver. Por exatos trinta anos. Quando acordou, havia teia e mofo pelas paredes, o cheiro lembrava bibliotecas, lojas de antiguidades, porão de igreja. Cheiro de lugares que abrigam muita coisa velha. E em desuso. Abriu os olhos. A imagem não era tão nítida quanto há trinta anos. Mesmo em repouso total, os olhos não captavam mais as nuances do papel de parede, muito menos as bolinhas de cinamomo com a mesma precisão de outrora.

Virou-se para o lado esquerdo, sentou-se à borda da cama. As unhas dos seus pés estavam enormes e, as pernas, com os músculos atrofiados. O cortador de unhas ainda tinha fio suficiente para cortar bem todas as unhas, exceto a do dedão do pé.

Calçou o par de sapatos empoeirado, que ficara todo esse tempo o vigiando, aguardando o dia em que seu dono acordasse e assim fossem juntos passear pela cidade. Caminhou a passos lentos, atravessou a praça onde aposentados jogavam dominó. Os jogadores de dominó não haviam mudado. Há trinta anos, eles eram velhinhos e, mesmo depois desse tempo todo, eles continuavam velhinhos.

Sentou-se no banco do engraxate e deixou que as mãos rápidas do menino sujo devolvessem o brilho aos sapatos. Agora sim ele se sentia melhor, embora solitário. Há trinta anos ele dormiu. Com uma mulher que não amava.

Friday, August 06, 2004

SOBRE O CÉU SOBRE O MAR
Maria do Socorro tinha 37 anos e nunca tinha visto o mar. Sua primeira vez foi na pacata praia de Santana da Conceição. Lá não havia ondas. Nem turistas, em se tratando de uma fria tarde do último sábado de agosto. Naquela grande enseada formava-se um espelho d'água liso como calçada de cimento fresco. Maria do Socorro não quis entrar na água pra não estragar aquela superfície lisinha com suas pegadas. Feias as pegadas. Pegadas de quem tem dedos tortos e rachaduras na sola grossa do pé. Então ela ficou ali sentada, contemplando tudo aquilo que pouco se mexia. E notou que o céu e a água eram muito parecidos. Dois azuis idênticos, separados pela linha do horizonte. Não sabia se o mar é que imitava o céu ou o céu é que queria fundir-se à terra, pegando uma carona com o sol que mergulhava na água.
Como o sol mergulhou e foi se apagando, ela concluiu que a água era mais forte que o fogo. E que todos os dias, a partir dali, seriam noites.

Tuesday, August 03, 2004

É tudo culpa dos médicos. Não, ninguém morreu. Foram eles que começaram com essa bobagem de escolher a cor do uniforme. Acharam que, por trabalharem com saúde, deviam aparentar sempre impecáveis, com toda aquela brancura que só omo dá, da cabeça aos pés. E para terem exclusividade no uso da cor branca, levaram uma proposta ao congresso para que cada profissão tivesse sua respectiva cor.

Assim, ficaria fácil identificar quem fazia o quê, mesmo no meio da multidão. Proposta analisada e aprovada. Os deputados adoraram tanto a idéia que já se anteciparam, registrando às pressas a cor dos políticos: seria o dourado para cargos federais, prata para estaduais e bronze para municipais, como se a eleição representasse uma medalha olímpica.

Os advogados, que não gostam de perder tempo, registraram o ciano, o magenta, o amarelo e o preto, as quatro cores básicas no processo de impressão. Desta forma poderiam, mais tarde, alegar que qualquer cor escolhida por outra profissão teria sido composta pela mistura de suas cores básicas. E os processariam pelo uso indevido de cor alheia.
Mas o juiz interveio e acabou com a picaretagem. Não porque ele tivesse bom senso, mas somente pelo fato de que ele queria a cor preta para a classe dele. Juízes de direito e de futebol compartilhariam o uso do preto em seus uniformes.

E assim foi, dia após dia, os representantes de classe se apressavam para garantir uma cor que fosse do seu gosto ou, no mínimo, que não ficasse indadequada. Ou ridícula. No terceiro dia, o Ministério do Trabalho já havia cadastrado mais de trinta cores de profissões. Quase uma caixa inteira de um super conjunto de lápis de cor. Lá por sexta feira, restavam pouquíssimas opções. Até mesmo o rosa, o lilás, o azul calcinha e o ocre já haviam sido escolhidos. E ainda tinha muita profissão sem cor de uniforme escolhida.

Lá pelo décimo dia, aí é que ficou realmente difícil de encontrar uma cor que ainda não tivesse dono. Quando o azul piscina, o azul celeste, o azul cobalto, o verde água, verde esperança, verde bandeira e o verde musgo já tinham suas respectivas profissões, chegou um sujeito esquisito, montou uma banquinha de camelô na porta do Ministério e tirou um leque do bolso. Olha o pantone barato, barato o pantoneeeeee! Era um publicitário. Cor da profissão: Pantone 368 C.

Sunday, August 01, 2004

SOBRE NOMES
Bagdad Café é o nome do estabelecimento. Porque o dono decidiu que esse seria o nome. Sem acento no A e com D mudo no fim. Provavelmente em homenagem ao clássico do cinema. Mas, nunca se sabe. Pode ser que o dono tenha viajado em lua-de-mel para o Iraque. Ou que ele seja simpatizante de Saddam. Ou de George W. Bush. Enfim, por algum motivo o nome está lá, no neon vermelho que faz um zunido de abelha.

Então eu peço um expresso duplo. Expresso porque o café é feito na hora, e duplo, porque ele tem o dobro da quantidade de um expresso comum. E assim as coisas vão ganhando nomes, porque algum dia alguém inventa alguma coisa nova e precisa chamá-la por um nome. De preferência, um nome que faça sentido, que você o associe ao sujeito da frase.

Quando eu nasci, por exemplo, minha mãe olhou para mim e pensou - que nome eu vou dar a esse sujeito? E viu que, por eu ser o segundo filho homem, eu representava uma segunda felicidade à família. E me pôs um nome que significasse "segunda felicidade".

A mesa que eu escolhi fica na calçada, ao ar livre, e o garçom vem com o meu expresso duplo, uma água com gás e um biscoitinho amanteigado com um pedacinho de goiabada no meio (O detalhe é que eu nunca sei qual a ordem correta - se eu como a bolachinha antes de tudo, tomo um golinho de água e depois vou para o café. Ou se eu tomo o café, como a bolachinha e, depois de tudo, tomo a água.).
Gosto de sentar onde as pessoas passam. Elas passam na frente dos meus olhos e assim, fazem parte de alguns míseros segundos da minha vida. Claro, a maioria das milhares de pessoas que eu já cruzei na rua nem sabem que eu existo e eu vou esquecer que elas existem nos próximos segundos.

Mas algumas delas eu fico as observando porque algo me chama a atenção. A beleza, o sorriso, o olhar triste, a pele enrugada, o cabelo pintado, o tênis colorido, o piercing no nariz, o nariz, os seios, a barriga caindo pra fora da calça. E fico viajando sobre quais seriam os seus nomes. Pessoas estranhas geralmente têm nomes estranhos. Ou elas são estranhas porque ganharam nomes estranhos de seus pais? Também fico imaginando seus apelidos. Aquele feirante, do outro lado da rua, por exemplo. É um negrão muito gordo. Quase redondo. Quase uma bola. Bolão! e, como é negro, algumas pessoas ainda devem chamá-lo de Bola Oito.

O garçom. Baixinho, cabelos crespos, tem um vasto bigode. Me lembra um jogador da seleção de 82. Tenho muita vontade de chamá-lo de Cerezo quando for pedir a conta. Mas não. Eu consigo me conter e chamo-o de "amigo", apesar de não me considerar amigo dele (se compararmos, Cerezo é até mais adequado do que Amigo). Então eu pago a conta ao Cerezo, deixo o Bagdad Café e vou caminhando em direção ao metrô.

Na entrada do metrô, há uma mulher sentada no chão, pedindo esmolas. Ela fala alguma coisa comigo mas eu não ouço nada. Tiro os fones de ouvido bem no meio de "Everlong", do Foo Fighters - e eu odeio ter que tirar os fones justo quando está tocando uma música que eu gosto na rádio. Mas eu resolvi ouvi-la porque o olhar dela parecia pedir socorro.
Enquanto o final de Everlong vaza pelos fones, ouço um resumo da vida dela em poucos segundos. A vida dela passa na minha cabeça como se fosse um clip, um medley de infelicidades, de infortúnios, de tragédias que não acabam mais. Ela me conta que está desempregada, despejada da casa que alugava, que o marido morreu de AIDS e que está grávida de cinco meses. Sente que é uma menina.

Dei a ela um real e uma fichinha de vale-transporte que tinha no bolso. Quis muito dar um nome à menina que está por nascer. Ela devia se chamar Esperança. Porque esperança é tudo o que ela precisa para continuar vivendo. Mas provavelmente, a menina será batizada de Suellen ou Kétlin, porque eu não sou nada dela para ficar dando palpites. Já ela, vai passar a fazer parte da minha vida. Porque eu vou me lembrar dessa mulher e da Esperança sempre que ouvir Everlong.