Monday, July 05, 2004

TEM UM NAVIO NA MINHA JANELA
Abro as minhas duas janelas e enxergo ele. Grande. Preenchendo quase todo o espaço da moldura. Como uma senhora gorda numa foto 3x4. Deve ter chegado de manhã cedinho, junto com o temporal que acordou as pessoas preguiçosas neste domingo preguiçoso. Os trovões eram dragões no meu sonho e a chuva, no telhado de zinco, era um tiroteio de balas cenográficas descoloridas.

O navio é amarelo. Tem uma bandeira que eu não consigo identificar e não vou fazer questão de descobrir de onde é. Ela deve estar lá naquele atlas empoeirado, de folhas amareladas, em cima do armário, fechado desde a época da oitava série. Para ele, a União Soviética ainda existe e Tocantins é só um nome de um rio brasileiro de águas turvas.

Mas voltando ao navio amarelo. Fico viajando. Tentando adivinhar no que atravessou o oceano dentro daqueles containers que não se enjoam do mar.
a) cravo da Índia
b) canela da China
c) vinho do Porto
d) chapéu do Panamá
e) linha do Equador

Bom, deixa assim. É melhor eu ficar imaginando que é um carregamento de palavras. Novas palavras para a língua portuguesa! O container do Japão estaria cheio de sushis, sakês, tempurás e yakisobas. No container da França, muitas delícias também: cabernets, croissants, patès e champignons. E chega a hora de abrir o container norteamericano. Não, obrigado. Já jantei.

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