Thursday, July 15, 2004

João fechou os olhos e foi pescar.
Agachou-se e cavocou a terra úmida sob o tronco da árvore que caiu com o temporal de duas semanas atrás. As minhocas ainda estavam alegres, serelepes, brincando de metrô em seus túneis cheios de curvas.

João cavocou a terra com a mão, cuidadosamente, para que não machucasse nenhuma delas. Escolheu quatro e deu-lhes nomes. Andréia, Miréia, Bibiana e Sarita. Andréia e Miréia, as mais longas e esguias. Bibiana era mediana, porém gorda. Sarita era a menor delas. Fininha e rápida como um lambari.

Mas chegou a hora. Elas tinham que ser sacrificadas. O anzol as atravessaria por toda a longitude de seus corpos. Andréia, Miréia, Bibiana e Sarita. Uma a uma.

João abriu os olhos e desistiu.
Ele preferiu não mais pescar. E ficou ali, sentado na sua cadeira de rodas, vendo a vida real onde nada se mexia. Só o capim ao vento.

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