Tuesday, July 06, 2004

AINDA SOBRE O NAVIO
Ele continua atracado. Para a minha decepção, parece que ele estava mesmo carregado de grãos. Mas eu simplesmente não aceito isso. Não aceito que isso esteja acontecendo. Como viúvas que não acreditam na morte de seus maridos. E servem um prato de comida a mais na hora do almoço solitário. Um copo d´água a mais, que não se esvazia por mais salgada que esteja a comida. Um jogo de talheres a mais. Garfo e faca, lado a lado. Calados. Sem dançar tango sobre o prato como haviam feito nos últimos 50 anos.

Então eu cedo em parte. Aceito que o navio está carregado de grãos, mas serão os grãos que eu quiser. A draga se enfia lá dentro do navio, abocanha algumas dezenas de quilos daquele grão para despejar na caçamba do caminhão. Mas o caminhão, que era pra estar lá, partiu sem avisar. E os grãos se esparramam pelo chão, formando uma imagem que eu ainda não consigo decifrar. Mas isso não vem ao caso. O que realmente importa e me fascina é a magia do chão de paralelepípedos, fazendo papel de papel fotográfico.

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