Monday, July 26, 2004

Um homem.
Um homem e uma mulher.
Um homem e uma mulher se encontraram.
Um homem e uma mulher se encontraram numa livraria.
Um homem e uma mulher se encontraram numa livraria e esbarraram um no outro.
Um homem e uma mulher se encontraram numa livraria e esbarraram um no outro, deixando cair todos livros que seguravam. 
Um homem e uma mulher se encontraram numa livraria e esbarraram um no outro, deixando cair todos livros que seguravam e, coincidentemente, eles haviam escolhido os mesmos títulos.
Um homem e uma mulher se encontraram numa livraria e esbarraram um no outro, deixando cair todos livros que seguravam e, coincidentemente, eles haviam escolhido os mesmos títulos, gerando uma confusão momentânea por não saberem quais livros eram de quem.
Um homem e uma mulher se encontraram numa livraria e esbarraram um no outro, deixando cair todos livros que seguravam e, coincidentemente, eles haviam escolhido os mesmos títulos, gerando uma confusão momentânea por não saberem quais livros eram de quem, mas logo viram que isso não importava.
Um homem e uma mulher se encontraram numa livraria e esbarraram um no outro, deixando cair todos livros que seguravam e, coincidentemente, eles haviam escolhido os mesmos títulos, gerando uma confusão momentânea por não saberem quais livros eram de quem, mas logo viram que isso não importava e juntaram os livros aleatoriamente, passando assim, a misturar suas vidas.
Um homem e uma mulher.

Sunday, July 18, 2004

SOBRE AS PALAVRAS
conheço bem todas as palavras que eu digo
e as que deixo de dizer
há uma infinidade de palavras que eu não conheço
e outras que eu jamais vou usar
por não simpatizar com elas,
por não concordar com o que elas querem dizer,
elas nunca vão fazer parte de uma frase proferida por mim
as palavras são armas poderosas
armas de fogo, escudo, arma de destruição em massa
uma arma que, como todas as outras,
não deve ser manuseada por quem não sabe
mas há também as armas do bem
uma frase, um discurso, uma declaração de amor 
são como exércitos que trabalham para salvar pessoas
de um trágico acidente.

Thursday, July 15, 2004

João fechou os olhos e foi pescar.
Agachou-se e cavocou a terra úmida sob o tronco da árvore que caiu com o temporal de duas semanas atrás. As minhocas ainda estavam alegres, serelepes, brincando de metrô em seus túneis cheios de curvas.

João cavocou a terra com a mão, cuidadosamente, para que não machucasse nenhuma delas. Escolheu quatro e deu-lhes nomes. Andréia, Miréia, Bibiana e Sarita. Andréia e Miréia, as mais longas e esguias. Bibiana era mediana, porém gorda. Sarita era a menor delas. Fininha e rápida como um lambari.

Mas chegou a hora. Elas tinham que ser sacrificadas. O anzol as atravessaria por toda a longitude de seus corpos. Andréia, Miréia, Bibiana e Sarita. Uma a uma.

João abriu os olhos e desistiu.
Ele preferiu não mais pescar. E ficou ali, sentado na sua cadeira de rodas, vendo a vida real onde nada se mexia. Só o capim ao vento.

Tuesday, July 06, 2004

AINDA SOBRE O NAVIO
Ele continua atracado. Para a minha decepção, parece que ele estava mesmo carregado de grãos. Mas eu simplesmente não aceito isso. Não aceito que isso esteja acontecendo. Como viúvas que não acreditam na morte de seus maridos. E servem um prato de comida a mais na hora do almoço solitário. Um copo d´água a mais, que não se esvazia por mais salgada que esteja a comida. Um jogo de talheres a mais. Garfo e faca, lado a lado. Calados. Sem dançar tango sobre o prato como haviam feito nos últimos 50 anos.

Então eu cedo em parte. Aceito que o navio está carregado de grãos, mas serão os grãos que eu quiser. A draga se enfia lá dentro do navio, abocanha algumas dezenas de quilos daquele grão para despejar na caçamba do caminhão. Mas o caminhão, que era pra estar lá, partiu sem avisar. E os grãos se esparramam pelo chão, formando uma imagem que eu ainda não consigo decifrar. Mas isso não vem ao caso. O que realmente importa e me fascina é a magia do chão de paralelepípedos, fazendo papel de papel fotográfico.

Monday, July 05, 2004

TEM UM NAVIO NA MINHA JANELA
Abro as minhas duas janelas e enxergo ele. Grande. Preenchendo quase todo o espaço da moldura. Como uma senhora gorda numa foto 3x4. Deve ter chegado de manhã cedinho, junto com o temporal que acordou as pessoas preguiçosas neste domingo preguiçoso. Os trovões eram dragões no meu sonho e a chuva, no telhado de zinco, era um tiroteio de balas cenográficas descoloridas.

O navio é amarelo. Tem uma bandeira que eu não consigo identificar e não vou fazer questão de descobrir de onde é. Ela deve estar lá naquele atlas empoeirado, de folhas amareladas, em cima do armário, fechado desde a época da oitava série. Para ele, a União Soviética ainda existe e Tocantins é só um nome de um rio brasileiro de águas turvas.

Mas voltando ao navio amarelo. Fico viajando. Tentando adivinhar no que atravessou o oceano dentro daqueles containers que não se enjoam do mar.
a) cravo da Índia
b) canela da China
c) vinho do Porto
d) chapéu do Panamá
e) linha do Equador

Bom, deixa assim. É melhor eu ficar imaginando que é um carregamento de palavras. Novas palavras para a língua portuguesa! O container do Japão estaria cheio de sushis, sakês, tempurás e yakisobas. No container da França, muitas delícias também: cabernets, croissants, patès e champignons. E chega a hora de abrir o container norteamericano. Não, obrigado. Já jantei.