Monday, June 07, 2004

Para onde foi a poesia?
- olha, acho que foi por ali, ó. Mas não tenho certeza não, moço.
Apontou a velhinha com sua mão enrugada, cheia de linhas cruzadas, cheia de destinos traçados. Opções demais para uma pessoa só em uma vida só. Opções demais para aquela pobre senhora tão franzina, tão sofrida e maltratada pela vida. Na dúvida, ela sempre escolhe uma só opção. E deixa de viver outras tantas.
E a poesia passou por ela, assim, sem cumprimentá-la, sem dar um bom-dia sequer. Passou depressa, à procura de moços e moças jovens que nunca experimentaram a dor de cair de joelhos num chão de cascalho. Esses sim, ainda não sabem o que é dor de verdade. Nada temem e se apaixonam sem medo de esfolar joelhos e cotovelos. Pensam que em alguns dias a pele cicatriza e fica tudo bem. Mas não. Depois de algumas quedas, o sujeito começa a evitar trilhas acidentadas e passa a preferir ruas asfaltadas, por onde só transitam palavras chatas como: cautelosamente, conseqüentemente, infelizmente.

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