Tuesday, June 29, 2004

O MENINO NEGRINHO DOS DENTES BRANCOS
Domingo era dia de trem. A maria-fumaça, que trabalhara durante décadas puxando vagões de arroz, feijão, milho e soja, agora só saía de casa aos domingos, pontualmente às 7h da manhã, abarrotada de turistas com suas câmaras fotográficas e salgadinhos. Às 7h11min, depois de cruzar duas pontes, um túnel e uma plantação de mandiocas, ela partia uma auto-estrada ao meio, em dois. Um dia todas as estradas vão se encontrar. E vão ficar intransitáveis se todos os carros que estiverem estacionados resolverem acordar.

Antes de cortar o asfalto ao meio, dona maria ia avisando de longe, dizendo sai da frente!, acordando o menino negrinho que morava à beira da linha do trem. Ele despertava e automaticamente suas duas pernas o conduziam até o barranco de onde ele podia ficar na mesma altura dos passageiros. Sentava-se na grama ainda molhada e aguardava a centopéia fumante que apontava a cabeça lá na curva que abraça o morro. O trem cheio de gente da cidade grande passava fazendo barulho, fazendo a terra tremer e deixando um cheiro de óleo queimado no ar.

Com as cabeças para fora da janela, as pessoas acenavam para o menino, que retribuía abanando com as duas mãos e um sorriso que exibia orgulhosamente seus dentes brancos. Um sorriso verdadeiro. A alegria em seu mais puro estado. Ele corria, quase na mesma velocidade do trem, até onde as suas pernas e seus pulmões aguentassem. Um dia ele cresceu. E o menino cansou de correr atrás de um trem que ele sequer sabia para onde ia.

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