Wednesday, June 30, 2004

ENTÃO EU COMPREI UMA GAITA DE BOCA
Mas ela insiste em esconder de mim as notas musicais em cada um dos seus buraquinhos, toquinhas de rato enfileiradas. Eu fico do lado de fora, quieto, parado e atento, aguardando uma oportunidade para dar o bote e devorá-las. Mas elas só saem pelo outro lado e sempre me escapam. Porque elas voam e logo entram em outra toca, o ouvido das pessoas. Entram correndo, desviam do martelo e fogem da bigorna. Perseguições de gato e rato sempre têm andaimes, explosivos e bigornas. Então a bigorna cai, faz aquele barulhão em dó e some antes que chegue outra nota em busca de ferrolho. Um dia eu ainda decoro onde cada uma delas se esconde do meu bafo de cachaça e toco um blues pra você.

Tuesday, June 29, 2004

O MENINO NEGRINHO DOS DENTES BRANCOS
Domingo era dia de trem. A maria-fumaça, que trabalhara durante décadas puxando vagões de arroz, feijão, milho e soja, agora só saía de casa aos domingos, pontualmente às 7h da manhã, abarrotada de turistas com suas câmaras fotográficas e salgadinhos. Às 7h11min, depois de cruzar duas pontes, um túnel e uma plantação de mandiocas, ela partia uma auto-estrada ao meio, em dois. Um dia todas as estradas vão se encontrar. E vão ficar intransitáveis se todos os carros que estiverem estacionados resolverem acordar.

Antes de cortar o asfalto ao meio, dona maria ia avisando de longe, dizendo sai da frente!, acordando o menino negrinho que morava à beira da linha do trem. Ele despertava e automaticamente suas duas pernas o conduziam até o barranco de onde ele podia ficar na mesma altura dos passageiros. Sentava-se na grama ainda molhada e aguardava a centopéia fumante que apontava a cabeça lá na curva que abraça o morro. O trem cheio de gente da cidade grande passava fazendo barulho, fazendo a terra tremer e deixando um cheiro de óleo queimado no ar.

Com as cabeças para fora da janela, as pessoas acenavam para o menino, que retribuía abanando com as duas mãos e um sorriso que exibia orgulhosamente seus dentes brancos. Um sorriso verdadeiro. A alegria em seu mais puro estado. Ele corria, quase na mesma velocidade do trem, até onde as suas pernas e seus pulmões aguentassem. Um dia ele cresceu. E o menino cansou de correr atrás de um trem que ele sequer sabia para onde ia.

Sunday, June 27, 2004

AS PARTES ÍNTIMAS
Gosto de você e quero conhecer todas as suas manias, todas as suas fragilidades, seus defeitos e suas esquisitices. Quero saber que você gosta de suco de goiaba com beterraba, que você gosta de gritar quando está sozinha no elevador, que você calça sempre o sapato do pé direito primeiro, que você gosta que alguém coce as suas costas até a pele ficar vermelha.

Eu, por exemplo, tenho a mania de ouvir o mesmo cd durante um mês, de apertar o repeat e ouvir a mesma música dúzias de vezes. Até comprar um cd novo. Sim, eu sou repetitivo. Faço as mesmas piadas sempre. Até eu inventar uma nova.

A música acabou e começou de novo. Tem um trecho da letra que eu nunca havia prestado atenção. O cantor se pergunta "para quien canto yo entonces?". Para quem canto eu então? Se a letra foi feita para e por você. Se a letra fala das suas manias. Das suas esquisitices. Ninguém vai entender. Ninguém vai se identificar com essa música. Vai para o lado B.

Thursday, June 24, 2004

E então ela me escolheu. Logo eu, que não tenho nada de especial, que sou uma pessoa tão feijão-com-arroz, quase que sem personalidade. E ela, justo ela, apontou o dedinho, uni-duni-tê, e me elegeu. Me avistou lá de cima, do centésimo nonagésimo sétimo andar. Respirou fundo, deu três passos à frente, pisou com os dois pés na ponta do trampolim, um pulinho pra frente para dar início à longa porém rápida viagem em direção ao solo. Ou, em minha direção. Eu não percebo nada, mas ela vem se aproximando, silenciosamente, em alta velocidade, sem breque, bochechas batendo ao vento, teleguiada para me alvejar. Sinto um pingo na testa. Vai chover.

Saturday, June 19, 2004

TOCA AMOR E ÓDIO!
Amor e ódio não era a música de trabalho e estava longe de se tornar um hit. A melodia não era a das melhores, a letra não tinha refrão, era longa, quase no limite de ser considerada chata, porém carregada de sentimento. Não tinha como ouví-la apenas uma vez e já sair cantarolando. Amor e ódio era difícil de decorar. Mas era a mais pedida pelos fãs. E todo final de música era a mesma coisa. Sempre tinha alguém que gritava lá do fundão "toca amor e ódio!".

Mas inexplicavelmente naquele dia, ela não se sentiu à vontade para atender aos pedidos. Porque, de repente, a música não fazia mais sentido para ela. Ela não conseguiria cantar com envolvimento, com amor, muito menos com ódio. Seria como cantar uma música em inglês sem saber o seu significado. Não faria a menor diferença se fosse ela cantando, o Cid Moreira cantando ou um cd da banda tocando no volume 2 do cd player de um fusca no meio de uma avenida barulhenta.

A música, composta há 2 ou 3 anos, na época, traduzia tudo o que ela tinha guardado no coração, querendo sair pelos dedos. É engraçado como a emoção se manifesta de várias formas. Sentimos dor no peito, vontade de chorar, de gritar e, muito estranho, uma sensação - que eu não sei descrever se é dor, coceira ou calor - na ponta dos dedos. Essa é a sensação que faz se concretizar tudo o que a gente está sentindo. Com os dedos a gente crava as unhas na testa, segura a mão de alguém, escreve uma declaração de amor num guardanapo e até reza, cruzando-os e unindo uma mão à outra.

Mas naquele dia, e em todos os outros que o sucederam, ela não se sentia fazendo parte da história, parte da letra de Amor e ódio. Foi quando ela inventou a resposta-padrão para quando pedissem para tocá-la. Ela dizia: Amor e ódio tem no nosso primeiro disco. E eu não vou conseguir chegar nem perto da vocalista que gravou aquela faixa. Fica pra próxima.

Monday, June 14, 2004

BLUE GIRL
Em dias frios e cinzentos, visto-me de cores escuras da cabeça aos pés. Não porque eu goste de roupas escuras, mas porque as roupas de inverno são, em sua maioria, em tons de preto ou marrom. Não fui eu que inventei que a jaqueta devia ser preta, nem que o gorro devia ser azul-marinho. O céu é cinza e as pessoas saem às ruas fantasiadas de corvos e urubus. A culpa seria das indústrias têxteis? dos estilistas? dos consultores de moda? Não interessa. Só sei que eu fico me sentindo como se fosse um boi que não consegue distinguir as cores, que enxerga tudo como se estivesse assistindo a uma TV preto-e-branco comprada na última liquidação da manlec por 49 reais. Um terrível pesadelo. Um pesadelo que duraria até agosto ou setembro. Mas que, graças a deus, termina assim que vejo a menina de azul turquesa que vem caminhando em minha direção. Ela não merece um beijo?

Monday, June 07, 2004

MEUS TROCADOS
- ô tio, ô tio, tem um trocado aí? consegue um reáu.
- tenho mas é meu.
- vê se não vai gastar tudo em cachaça, né tio?
Para onde foi a poesia?
- olha, acho que foi por ali, ó. Mas não tenho certeza não, moço.
Apontou a velhinha com sua mão enrugada, cheia de linhas cruzadas, cheia de destinos traçados. Opções demais para uma pessoa só em uma vida só. Opções demais para aquela pobre senhora tão franzina, tão sofrida e maltratada pela vida. Na dúvida, ela sempre escolhe uma só opção. E deixa de viver outras tantas.
E a poesia passou por ela, assim, sem cumprimentá-la, sem dar um bom-dia sequer. Passou depressa, à procura de moços e moças jovens que nunca experimentaram a dor de cair de joelhos num chão de cascalho. Esses sim, ainda não sabem o que é dor de verdade. Nada temem e se apaixonam sem medo de esfolar joelhos e cotovelos. Pensam que em alguns dias a pele cicatriza e fica tudo bem. Mas não. Depois de algumas quedas, o sujeito começa a evitar trilhas acidentadas e passa a preferir ruas asfaltadas, por onde só transitam palavras chatas como: cautelosamente, conseqüentemente, infelizmente.