Saturday, May 15, 2004

Qualquer besteira era motivo para o menino ser xingado.
Dudu não podia comer depressa, senão a mãe dizia que ia dar indigestão. Se comesse devagar, ela dizia que ia pegar o prato e dar pros mendigos. Se ele falasse muito, mandava calar a boca. Se ficasse quieto, ela perguntava o que passava pela sua cabecinha.
- Tu tá planejando alguma coisa, né, seu guri medonho!
Era dia de passe livre e os dois estavam esperando o ônibus, linha Morro Santana, pra irem visitar a dinda. A mãe segurava firmemente o dinossauro de brinquedo do menino, abraçando-o como se fora seu filho. Fazia isso para que nenhum moleque de rua roubasse o T-rex, porque segundo ela, o menino era muito avoado.
- vem mais pra frente senão a gente não vai enxergar o ônibus, guri!
- Carlos Eduardo! não vai tanto pra frente! tu quer morrer atropelado? é isso?
Por alguns instantes, talvez ele quisesse mesmo morrer atropelado. Não dá idéia errada, mulher.
Carlos Eduardo era franzino, tinha uma voz esganiçada de quem fala por obrigação. Porque não tem prazer em falar. Falar, para ele, dói. Falar pode ser um motivo pra levar um cascudo. Falar, só o necessário.
Passaram-se 15 minutos e nenhum sinal do linha 493 - Morro Santana. Dia de passe livre é assim mesmo. Espera-se 45 minutos pra pegar um ônibus. É o preço pra andar de graça pra qualquer fim de mundo dentro de Porto Alegre. Mas 15 minutos é uma eternidade pra quem está sendo xingado de 10 em 10 segundos. Ele quieto, ela puteando-o.
O dinossauro vê tudo mas não pode fazer nada para defender o menino. Fica com aquela boca aberta, cheia de dentes afiados, com aquela cara assustadora, mas não faz nada. E ainda ganha colinho.
O menino olha para ele e pensa: como eu queria entrar em extinção e ser de plástico!

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