Sunday, May 23, 2004

MENINA MÁ
A chuva que caía era fina, sobre a rua de paralelepípedos. Paralelepípedos molhados+curva=derrapagem. No lado oposto à curva, há alguns anos, alguém teve a péssima idéia de plantar uma árvore. Que cresceu, cresceu, engrossou seu tronco e fixou raízes naquele chão. O que a impossibilitou de sair do caminho do motoqueiro desgovernado. O capacete se espatifou em 7 pedaços. O crânio, em dois. Morte cerebral instantânea.
Na sua carteira de identidade, além de uma foto com corte de cabelo fora de moda, ele tinha um selo que o identificava como doador de órgãos. Ambulância ziguezagueando em grandes avenidas, cruzando sinal vermelho, sirene acordando mendigos que dormiam encolhidos sobre o papelão naquela fria manhã de junho. O corpo, estendido no chão, embora já sem vida, era a esperança de sobrevida para uma enorme fila de espera por um novo coração, novas córneas, novos pulmões, novo fígado. Por isso a pressa.
Transplante de órgãos é uma invenção absurda. Quando eu era criança, fazia algo parecido com meus brinquedos velhos. Pegava uma roda de um carrinho, o motorzinho de outro e fazia um carrinho todo novo, zero km.
No bloco cirúrgico, abriram a caixa torácica. Luz. Sangue. Mais luz. Aparentemente, todos os órgãos poderiam servir para salvar outras vidas. O cirurgião vai em direção ao lado esquerdo do peito, três dedos abaixo do mamilo. Era para ele estar lá. Mas o coração não estava onde devia, de acordo com as coordenadas de todos os manuais de anatomia.
Roberto, o motoqueiro, já tinha doado seu coração à Carla. Que não havia dado o seu em troca.
O paciente da fila de espera, cardíaco, teve de esperar mais um pouco. Mas foi melhor assim. Porque Carla, menina má, não tinha um bom coração.

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