Saturday, May 01, 2004

HOMENZIM E MULHERZIM
A vida deles era muito chata. Um tédio. Nada acontecia. Mesmo assim, eles nunca tinham tempo de se ver. Seus encontros eram sempre relâmpagos. Talvez por isso é que eles valorizavam tanto os míseros instantes de quando se viam.

O menino adorava quando a menina contava os segredos das mulheres. Eram muitos. Segredos que elas contam quando vão juntas ao banheiro. Quem vai ficar com quem, quem já beijou quem, quem a fulana estava paquerando, quem tinha traído quem.
O menino, por sua vez, não tinha muito a revelar sobre os homens.

Homens em geral vão sozinhos ao banheiro. Fazem tremendos barulhos, cospem, assoviam, cantarolam enquanto urinam. Mas falam pouquíssimo. Homens são práticos. Ir ao banheiro é o momento de esvaziar a bexiga e esvaziar a mente. Quando muito, dão uma conferida nas declarações e piadas infames escritas na parede.

No mais, os dois ficavam ali, lado a lado, paradinhos, conversando e esperando uma oportunidade para se encontrarem. Às vezes o menino vinha correndo de encontro à menina, dava um oizinho e voltava pro seu lugar. Outras vezes, a menina é que vinha, dava uma pisacadela e tchau. Quando tinham muita, mas muita sorte mesmo, eles iam um de encontro ao outro e ficavam tète-a-tète, olho no olho, mas era tudo muito rápido. Em questão de milésimos de segundos eles voltavam para os seus lugares. Nem dava tempo de esboçar um beijo.

Eles formavam um lindo casal. Eram muito parecidos. O amor entre eles existia, mas nunca se consumia. Apesar disso, eles se contentavam em saber que se amavam e, o mais importante de tudo, que o amor era verdadeiro. Triste relacionamento. Mas podia ser pior. As portas daquele banheiro poderiam ser de abrir para dentro.

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