Friday, May 28, 2004

DECISÃO TOMADA
Foi-se a última gota que existia no frasco. Junto, acabaram-se os motivos para se suspirar. Acabou-se o encanto, a alegria, acabaram-se as lembranças. Porque odores, músicas e sabores nos fazem reviver capítulos importantes das páginas que já viramos. Sem perfume, as pétalas desistiram de ser flor. Jogaram-se para trás, como alguém que se joga de costas num precipício. Sem querer saber o que vinha depois. Sem querer que existisse o depois. Jogaram-se uma a uma. Em movimentos lentos, porém decididos. Porque elas preferiram a queda, a mudança e a regeneração, a permanecer eternamente num caule duro, seco e espinhento.

Tuesday, May 25, 2004

E o menino resolveu guardar todo o dinheiro que ganhasse.
Todo e qualquer trocado que ele recebesse, a partir dali, seria depositado num cofrinho. Não comprava mais balas, nem figurinhas, muito menos ia jogar fla-flu. Refrigerante, nem pensar. Descobriu que água da torneira funcionava que era uma beleza para matar a sede.

Em 2 meses, já não cabia sequer mais uma moeda de um centavo no porquinho de pocelana cor-de-rosa. Pediu então ao seu avô que construísse, com um barril, um enorme cofre, capaz de armazenar muito, mas muito dinheiro mesmo. Um porco do tamanho de um barril, também pintado de rosa. No ritmo que estava, o menino fazia uma projeção de que demoraria pelo menos uns 5 anos para encher o novo cofre.

Mas ele não queria ficar milionário. Apenas queria guardar todo o dinheiro que passasse pelas suas mãos, para o resto da vida. Até que chegasse o dia em que não houvesse mais uma nota de um Dólar, um centavo de Pesos, uma única moeda furada de cinco Ienes circulando por aí.
E o que ele queria com isso? Que não restasse no mundo, ninguém que trabalhasse exclusivamente para ganhar dinheiro. Assim, as únicas profissões que sobreviveriam seriam as que fossem realmente nobres. Que tinham uma importante razão para existir, mesmo que não remuneradas.

E ele já tinha em mente quais seriam essas profissões. Dentre as poucas que restariam, estavam o jardineiro, que dedica sua vida para que os jardins mantenham-se sempre floridos e com cheiro de grama recém cortada. A professora do ensino fundamental que, como o nome já diz, ensina somente o que é fundamental para o desenvolvimento de uma criança: ler e escrever. O que vem depois é um monte de baboseiras. Professores de química seriam os primeiros a ficarem desempregados.

Também estavam na sua lista os médicos, os músicos e os palhaços. Ah, os profissionais de RH que fazem testes vocacionais também entrariam logo em extinção. Porque a lista de empregos possíveis seria bastante enxuta, o que facilitaria demais na hora da escolha: jardineiro, médico, professor, músico, ou palhaço. Num mundo sem dinheiro, eu seria palhaço.
QUALIDADE OU DEFEITO?
Boa essa brincadeira. Diga algo sobre você e eu respondo se eu acho que é uma qualidade ou defeito. Se bem que, com você, não dá pra brincar. Não dá mesmo. Por exemplo, teu jeito desengonçado de andar, como se estivesse aprendido a caminhar há menos de um mês (sendo que eu te conheço há mais de um mês e você já sabia caminhar). Desse jeito desequilibrado, mas sabia. Não sei se isso é uma qualidade ou um defeito. Eu acho um charme. Próxima.
Tuas gargalhadas. Difícil. Você, quando ri, parece que vai se engasgar, é uma mistura de soluço com convulsão, sem falar que seu rosto fica todo desfigurado. Eu me arriscaria a dizer que é um defeito. Mas eu gosto muito. Demais. Sinto falta das tuas gargalhadas, a ponto de ficar bolando dezenas de piadas infames pra te contar todas de uma só vez quando te encontrar. Neste momento, classifico-as como uma qualidade. Neste momento, não podemos brincar de "qualidade ou defeito". Porque além de eu não saber jogar direito e não entender todas as regras, eu vou roubar muito.

Sunday, May 23, 2004

MENINA MÁ
A chuva que caía era fina, sobre a rua de paralelepípedos. Paralelepípedos molhados+curva=derrapagem. No lado oposto à curva, há alguns anos, alguém teve a péssima idéia de plantar uma árvore. Que cresceu, cresceu, engrossou seu tronco e fixou raízes naquele chão. O que a impossibilitou de sair do caminho do motoqueiro desgovernado. O capacete se espatifou em 7 pedaços. O crânio, em dois. Morte cerebral instantânea.
Na sua carteira de identidade, além de uma foto com corte de cabelo fora de moda, ele tinha um selo que o identificava como doador de órgãos. Ambulância ziguezagueando em grandes avenidas, cruzando sinal vermelho, sirene acordando mendigos que dormiam encolhidos sobre o papelão naquela fria manhã de junho. O corpo, estendido no chão, embora já sem vida, era a esperança de sobrevida para uma enorme fila de espera por um novo coração, novas córneas, novos pulmões, novo fígado. Por isso a pressa.
Transplante de órgãos é uma invenção absurda. Quando eu era criança, fazia algo parecido com meus brinquedos velhos. Pegava uma roda de um carrinho, o motorzinho de outro e fazia um carrinho todo novo, zero km.
No bloco cirúrgico, abriram a caixa torácica. Luz. Sangue. Mais luz. Aparentemente, todos os órgãos poderiam servir para salvar outras vidas. O cirurgião vai em direção ao lado esquerdo do peito, três dedos abaixo do mamilo. Era para ele estar lá. Mas o coração não estava onde devia, de acordo com as coordenadas de todos os manuais de anatomia.
Roberto, o motoqueiro, já tinha doado seu coração à Carla. Que não havia dado o seu em troca.
O paciente da fila de espera, cardíaco, teve de esperar mais um pouco. Mas foi melhor assim. Porque Carla, menina má, não tinha um bom coração.
Há quem diga que o amor move o mundo. Outros, garantem que é o sexo. Alguns, mais burocratas, acreditam que o dinheiro é que faz o mundo girar.
Mas nada, nada mesmo, chega perto da dúvida. A dúvida é o que dá o tempero, a pimenta no mocotó. Ao longo da vida, as pessoas não têm certeza de nada. Será que continuo fazendo estágio pra investir na minha carreira ou faço um concurso público e não me incomodo mais? Mas daí eu vou ser um merda. E talvez eu me arrependa. Será que fico com a Mariazinha? Será que a Mariazinha gosta de mim? A dúvida vai me obrigar a tomar uma atitude. Que vai ser decisiva para o rumo que a minha vida vai tomar. Quanto mais dúvidas, mais divertida a vida é. Quer dizer que mais possibilidades a gente tem. Porque quem não tem dúvidas é porque não tem outra opção.
Agora, por exemplo, não sei se termino este texto por aqui. Não sei se alguém vai ler essa merda. Não sei se alguém vai gostar. Então eu vou me esforçar pra tornar o texto interessante. Gostoso de ler. Engraçado, talvez. Se bem que eu já dei meu recado - a dúvida é o que move o mundo. Será?

Saturday, May 15, 2004

Qualquer besteira era motivo para o menino ser xingado.
Dudu não podia comer depressa, senão a mãe dizia que ia dar indigestão. Se comesse devagar, ela dizia que ia pegar o prato e dar pros mendigos. Se ele falasse muito, mandava calar a boca. Se ficasse quieto, ela perguntava o que passava pela sua cabecinha.
- Tu tá planejando alguma coisa, né, seu guri medonho!
Era dia de passe livre e os dois estavam esperando o ônibus, linha Morro Santana, pra irem visitar a dinda. A mãe segurava firmemente o dinossauro de brinquedo do menino, abraçando-o como se fora seu filho. Fazia isso para que nenhum moleque de rua roubasse o T-rex, porque segundo ela, o menino era muito avoado.
- vem mais pra frente senão a gente não vai enxergar o ônibus, guri!
- Carlos Eduardo! não vai tanto pra frente! tu quer morrer atropelado? é isso?
Por alguns instantes, talvez ele quisesse mesmo morrer atropelado. Não dá idéia errada, mulher.
Carlos Eduardo era franzino, tinha uma voz esganiçada de quem fala por obrigação. Porque não tem prazer em falar. Falar, para ele, dói. Falar pode ser um motivo pra levar um cascudo. Falar, só o necessário.
Passaram-se 15 minutos e nenhum sinal do linha 493 - Morro Santana. Dia de passe livre é assim mesmo. Espera-se 45 minutos pra pegar um ônibus. É o preço pra andar de graça pra qualquer fim de mundo dentro de Porto Alegre. Mas 15 minutos é uma eternidade pra quem está sendo xingado de 10 em 10 segundos. Ele quieto, ela puteando-o.
O dinossauro vê tudo mas não pode fazer nada para defender o menino. Fica com aquela boca aberta, cheia de dentes afiados, com aquela cara assustadora, mas não faz nada. E ainda ganha colinho.
O menino olha para ele e pensa: como eu queria entrar em extinção e ser de plástico!

Sunday, May 09, 2004

Ela era uma mulher câmera-lenta.
Mulheres câmera-lenta são aquelas que, quando lembramos delas, a cena que vem à cabeça tem sempre o mesmo roteiro: ela vem caminhando em nossa direção, sorrindo, jogando o cabelo para o lado, olhar penetrante, suingue nos quadris, um pé à frente do outro como se estivesse sobre uma corda bamba, com a diferença de que seus passos são firmes. Tudo isso muito devagar. Para dar tempo de a gente ficar lembrando de todos os detalhes depois. O olhar, os lábios, os seios. Câmera+ da Globo nos seios.
(continua)

Friday, May 07, 2004

DEIXA EU ENTRAR
em vez de boca
você tem sorriso
em vez de braços
você tem abraços

em vez de seios
dois devaneios
em vez de pernas
você tem um baile

em vez de olhos
você tem duas portas
de um jardim secreto

que em vez da chave
eu tenho um cadeado
que em vez de aberto
está bem fechado
Conjugando
eu jeremia
tu jeremias
ele jeremia
nós jeremíamos
vós jeremíeis
eles jeremiam
e você?
já jeremiou hoje?

Wednesday, May 05, 2004

NA POLTRONA
- as pessoas levam um susto né? Edna, o que é que você fez?
- a primeira prova, valendo cem pontos para cada casal!

- se o senhor acha que esse sistema de representação democrática deve mudar, em que deve mudar?
- ah, eu faço tratamento estético na Le Ru, nutricionista...
- colocar os instrumentos ali acaba sendo um prazer.

- vossa excelência, com a palavra, deputado Ado Valverde:
- com tantas cores nos vasos, tantos arranjos, nenhum produtor quer deixar o dia das mães passar em branco.

- ligue agora pra nossa central de agendamento, numero 5079.2255, e agende a sua avaliação, é totalmente grátis, não paga nada.
- esse é um trabalho social que a gente tá realizando

- hoje eu to proporcionando pra minha filha uma vida muito boa, estável, estuda no melhor colégio da cidade.
- sensacional! parabéns, viu? não é pra qualquer pai.
- precisa convencer os parlamentares sobre esses números.
- o governo tomou uma decisão bastante conservadora.
- plim-plim.

Monday, May 03, 2004

uma música sertaneja

MOÇA DO CARRO
eu era bem pobre, e você milionária
sua vida perfeita, a minha ordinária
você nasceu em berço de ouro
e eu, me criei com a turma do morro

você deve ser empresária ou doutora
eu sou vendedor de bala de goma
a gente se vê sempre na mesma esquina
mas eu passo em branco na sua rotina

seu carro é luxuoso e tem ar
abaixe logo o vidro para eu lhe falar
preciso te dizer o quanto eu te amo
preciso te dizer, e de hoje não vai passar

quem me dera eu ouvir sua voz uma única vez
falando palavras de amor para mim em francês (2x)

eu fico ali parado, sonhando acordado
cantando a canção que leio em seus lábios
mas abre o sinal e você vai-se embora
e eu fico aqui sozinho, com um coração que chora

Saturday, May 01, 2004

HOMENZIM E MULHERZIM
A vida deles era muito chata. Um tédio. Nada acontecia. Mesmo assim, eles nunca tinham tempo de se ver. Seus encontros eram sempre relâmpagos. Talvez por isso é que eles valorizavam tanto os míseros instantes de quando se viam.

O menino adorava quando a menina contava os segredos das mulheres. Eram muitos. Segredos que elas contam quando vão juntas ao banheiro. Quem vai ficar com quem, quem já beijou quem, quem a fulana estava paquerando, quem tinha traído quem.
O menino, por sua vez, não tinha muito a revelar sobre os homens.

Homens em geral vão sozinhos ao banheiro. Fazem tremendos barulhos, cospem, assoviam, cantarolam enquanto urinam. Mas falam pouquíssimo. Homens são práticos. Ir ao banheiro é o momento de esvaziar a bexiga e esvaziar a mente. Quando muito, dão uma conferida nas declarações e piadas infames escritas na parede.

No mais, os dois ficavam ali, lado a lado, paradinhos, conversando e esperando uma oportunidade para se encontrarem. Às vezes o menino vinha correndo de encontro à menina, dava um oizinho e voltava pro seu lugar. Outras vezes, a menina é que vinha, dava uma pisacadela e tchau. Quando tinham muita, mas muita sorte mesmo, eles iam um de encontro ao outro e ficavam tète-a-tète, olho no olho, mas era tudo muito rápido. Em questão de milésimos de segundos eles voltavam para os seus lugares. Nem dava tempo de esboçar um beijo.

Eles formavam um lindo casal. Eram muito parecidos. O amor entre eles existia, mas nunca se consumia. Apesar disso, eles se contentavam em saber que se amavam e, o mais importante de tudo, que o amor era verdadeiro. Triste relacionamento. Mas podia ser pior. As portas daquele banheiro poderiam ser de abrir para dentro.