Thursday, April 22, 2004

XÓVIXUVA
A cidade está com sede. O ar está seco e há tempos que o meio-fio não vê a água correr depressa. O sol é tão forte que castiga os vendedores ambulantes e toda essa gente que passa o dia na rua para ganhar a vida. Gritos. Ofertas. Repetições. A tinta da faixa de segurança quase derrete, quase unindo uma tarja branca à outra. Mas elas nunca vão se encontrar, apesar de passarem a vida toda lado a lado. Como pais que não abraçam os filhos. Como casais que não se beijam mais. Uma nuvem negra se aproxima e, com ela, traz um vento fresco que se mistura com o mormaço. Sensação térmica de porta de entrada de shopping center. O calor que de repente vira frio. A nuvem negra, carregada de água e tristeza, chora suas mágoas sobre a cidade, que a recebe com muita alegria. Em poucos instantes, a cidade a oferece flores, que desabrocham uma após a outra, embora sejam, em sua maioria, também negras. Flores negras que caminham, vez que outra se debatem, dançando valsa, tango e rumba, todas ao som do chuá-chuá-chuá.

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