Tuesday, April 20, 2004

a viagem do gaucho
Sentado ao pé de uma figueira que cresce na horizontal, sorveu o mate até roncar, acendeu o cigarro de palha e ficou assistindo ao seu programa diário favorito, o pôr-do-sol nas coxilhas. Depois de uma jornada inteira na lida no compo, essa era a sua recompensa. O sol, que o dia todo só serve pra escaldar o lombo do cavalo malacara, no final da tarde vai tingindo de sangue tudo o que vê pela frente. O sangue assusta. Porque ele nos faz lembrar que somos seres vivos. E quem é vivo sabe que um dia vai morrer. Mas o gaúcho gostava de ficar imaginando que tudo aquilo que o sol tingia de vermelho pudesse ganhar vida. E que aquela pequena dose diária de sangue havia de levar a vida às pedras, às nuvens, aos moirões e a lápide da sua amada prenda.

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