Friday, April 30, 2004

NADA A DECLARAR
Acordo numa cama que não parece a minha. Porque não há mais o seu perfume no lençol, não há mais cabelos no travesseiro ao lado. Não há mais o travesseiro ao lado. Estendo o braço, tateando, ainda com uma pontinha de esperança de te encontrar.
Me levanto e sinto que há algo de errado. O canto dos pássaros parece desafinado. Parece que eles estão ali só pra cumprir a tarefa de piar diariamente, empoleirados nos fios elétricos. Seu canto soa como uma conversa de burocratas. Medíocres. Sinto raiva deles.
O brilho do sol me incomoda. Não é necessário tanta luz pra iluminar uma vida tão vazia quanto a minha. Um desperdício de energia. O céu está azul, limpinho, sem uma única nuvem. Logo, um céu sem movimento. Sem vida.
Há um pé de azaléias no quintal. Estamos no início da primavera e elas estão desabrochando uma após a outra, como pipocas no óleo quente. Bate uma brisa e eu me apresso pra fechar a janela. O vidro será providencial para me proteger da rinite.
Tudo é chato. Tudo perdeu a graça. Não consigo entender como até ontem essas coisas idiotas me emocionavam. Não consigo mais entender o que é, de fato, se emocionar. Vou jogar fora todos os meus CDs, os livros de poesia e as velhas cartas de amor. Vou arrancar os quadros das paredes e pintá-las todas de cinza. Tornei-me uma máquina, sem sentimentos. Uma máquina que, ao que tudo indica, está com mal-contato naquele fiozinho que liga o coração ao cérebro.

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