Tuesday, April 13, 2004

E ele resolveu virar quadrúpede.
Agachou-se, pôs as duas mãos ao chão e tomou seu rumo. No segundo dia, tendo bolhas em suas mãos, providenciou um par de luvas de goleiro. As pessoas estranhavam. Umas riam, outras torciam o nariz. Mas ele estava convicto.

Alguém havia de contestar essa verdade absoluta. Se algum dia o ser humano já foi quadrúpede e deixou de ser, foi porque um indivíduo decidiu desafiar a todos e andar de pé. Foi difícil. Ah, se foi. Num primeiro momento, exigiu de toda a capacidade do labirinto. Mas depois foi que era um Dodge. E assim deveria ser também com o processo inverso.

Logo no terceiro dia, começou a notar significativas vantagens. Andando por uma calçada toda irregular, eis que o nosso amigo tropeça numa laje mais alta com o pé direito. Mas lá estavam todos os outros três membros para manter a estabilidade que o ser humano necessita. Nem foi preciso dar aquela famosa corridinha de 3 passos pra disfarçar o tropeço.

À noite, foi tomar umas polar geladas e entrou pra dentro da garrafa. Na hora de ir pra casa, não passou o vexame de andar cambaleando. Os vizinhos até riam, mas era somente pelo fato de ele estar caminhando na tração 4x4.

E assim foi. Cada dia uma descoberta. A oferta de empregos para quadrúpedes era imensa: aplicador de sinteko, pintor de rodapé, colador de carpetes, secador de quadras de vôlei e por aí vai.

No quarto dia, foi a um aniversário de uma amiga. Até chamou a atenção no momento em que chegou na festa, mas o auge mesmo foi às 2h da manhã. Na hora em que todo mundo já estava num estadinho lamentável, o dj resolve tocar uma seqüência de axé music. O quadrúpede foi ao centro da rodinha e começou a puxar as coreografias. Inovou novamente, trocando a coreografia de "dá uma abaixadinha" para "dá uma levantadinha", emendando uma rebolada de pé. Momento memorável. Pareciam que aqueles seres que dançavam axé finalmente começariam a evoluir.

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