Sunday, April 18, 2004

DOMINGO EM SOL MENOR
Não quero mais ser seu remédio. É o refrão de uma música sertaneja que o cantor das ruas canta numa manhã nublada de domingo. As pessoas saíram de suas casas esperando sol e alegria, mas a manhã é triste. E o violão chora. O cantor das ruas é franzino, negro, usa roupas de cor marrom, tem um vasto bigode. Um senhor com mais de 50 anos, com certeza. Mas a sua voz é fina como a de uma criança de 11 anos. Triste. Parece que ela não acompanhou o crescimento do restante do corpo. Seus braços, suas pernas, seu tórax, abdomen e cabeça cresceram em "dó", enquanto suas cordas vocais cresceram em "sol menor". A voz do cantor negou-se a crescer. Não quis tornar-se adulta. Quis ser para sempre criança porque acreditava que quiçá, um dia, o cantor pudesse viver a infância que ele não pôde ter. E quando esse dia chegasse, ele teria de estar preparado para brincar e dar risadas encantadoras. O que uma voz de criança sabe fazer melhor do que ninguém.

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