Friday, April 30, 2004

NADA A DECLARAR
Acordo numa cama que não parece a minha. Porque não há mais o seu perfume no lençol, não há mais cabelos no travesseiro ao lado. Não há mais o travesseiro ao lado. Estendo o braço, tateando, ainda com uma pontinha de esperança de te encontrar.
Me levanto e sinto que há algo de errado. O canto dos pássaros parece desafinado. Parece que eles estão ali só pra cumprir a tarefa de piar diariamente, empoleirados nos fios elétricos. Seu canto soa como uma conversa de burocratas. Medíocres. Sinto raiva deles.
O brilho do sol me incomoda. Não é necessário tanta luz pra iluminar uma vida tão vazia quanto a minha. Um desperdício de energia. O céu está azul, limpinho, sem uma única nuvem. Logo, um céu sem movimento. Sem vida.
Há um pé de azaléias no quintal. Estamos no início da primavera e elas estão desabrochando uma após a outra, como pipocas no óleo quente. Bate uma brisa e eu me apresso pra fechar a janela. O vidro será providencial para me proteger da rinite.
Tudo é chato. Tudo perdeu a graça. Não consigo entender como até ontem essas coisas idiotas me emocionavam. Não consigo mais entender o que é, de fato, se emocionar. Vou jogar fora todos os meus CDs, os livros de poesia e as velhas cartas de amor. Vou arrancar os quadros das paredes e pintá-las todas de cinza. Tornei-me uma máquina, sem sentimentos. Uma máquina que, ao que tudo indica, está com mal-contato naquele fiozinho que liga o coração ao cérebro.

Sunday, April 25, 2004

abá abé abi abu
é um show de horror
os primeiros instantes
de quando te vejo

fico cheio de tiques
cheio dos tremeliques
me atrapalho
me engasgo
me sinto um carro a álcool
E de repente ele aparece de sopetão, sem avisar, sem ser convidado. Como de costume.
- Entre, a porta está aberta. Afinal, já nos conhecemos de longa data. Por onde você andava esse tempo todo? Não dá mais as caras, nenhum telefonema, não manda notícias, sequer um mísero email de corrente você foi capaz de repassar. Simplesmente me abandonou. Foi embora aos pouquinhos, em doses homeopáticas. Na ponta dos pés, pra não acordar alguém que estava em sono profundo, sonhando. Isso por um lado foi bom. Mas o ruim é que depois a pessoa acorda, percebe que você se foi e, mesmo assim, fica insistindo em acreditar no sonho que já acabou.
E pelo visto você continua o mesmo. Deixe-me ver. É, acho que sim. Mas, engraçado...apesar de andar sumido, eu vinha pensando bastante em você ultimamente. Talvez estivesse sentindo a sua falta, eu admito. Acho que estava pressentindo a sua chegada. Na verdade eu não tinha muita certeza de que era você quem estava chegando. Você sabe, eu costumo confundí-lo com os outros. É tudo culpa sua. Porque você, Amor, tem essa mania de andar sempre junto com a Amizade. E eu faço uma tremenda confusão.

Thursday, April 22, 2004

XÓVIXUVA
A cidade está com sede. O ar está seco e há tempos que o meio-fio não vê a água correr depressa. O sol é tão forte que castiga os vendedores ambulantes e toda essa gente que passa o dia na rua para ganhar a vida. Gritos. Ofertas. Repetições. A tinta da faixa de segurança quase derrete, quase unindo uma tarja branca à outra. Mas elas nunca vão se encontrar, apesar de passarem a vida toda lado a lado. Como pais que não abraçam os filhos. Como casais que não se beijam mais. Uma nuvem negra se aproxima e, com ela, traz um vento fresco que se mistura com o mormaço. Sensação térmica de porta de entrada de shopping center. O calor que de repente vira frio. A nuvem negra, carregada de água e tristeza, chora suas mágoas sobre a cidade, que a recebe com muita alegria. Em poucos instantes, a cidade a oferece flores, que desabrocham uma após a outra, embora sejam, em sua maioria, também negras. Flores negras que caminham, vez que outra se debatem, dançando valsa, tango e rumba, todas ao som do chuá-chuá-chuá.

Tuesday, April 20, 2004

a viagem do gaucho
Sentado ao pé de uma figueira que cresce na horizontal, sorveu o mate até roncar, acendeu o cigarro de palha e ficou assistindo ao seu programa diário favorito, o pôr-do-sol nas coxilhas. Depois de uma jornada inteira na lida no compo, essa era a sua recompensa. O sol, que o dia todo só serve pra escaldar o lombo do cavalo malacara, no final da tarde vai tingindo de sangue tudo o que vê pela frente. O sangue assusta. Porque ele nos faz lembrar que somos seres vivos. E quem é vivo sabe que um dia vai morrer. Mas o gaúcho gostava de ficar imaginando que tudo aquilo que o sol tingia de vermelho pudesse ganhar vida. E que aquela pequena dose diária de sangue havia de levar a vida às pedras, às nuvens, aos moirões e a lápide da sua amada prenda.

Sunday, April 18, 2004

DOMINGO EM SOL MENOR
Não quero mais ser seu remédio. É o refrão de uma música sertaneja que o cantor das ruas canta numa manhã nublada de domingo. As pessoas saíram de suas casas esperando sol e alegria, mas a manhã é triste. E o violão chora. O cantor das ruas é franzino, negro, usa roupas de cor marrom, tem um vasto bigode. Um senhor com mais de 50 anos, com certeza. Mas a sua voz é fina como a de uma criança de 11 anos. Triste. Parece que ela não acompanhou o crescimento do restante do corpo. Seus braços, suas pernas, seu tórax, abdomen e cabeça cresceram em "dó", enquanto suas cordas vocais cresceram em "sol menor". A voz do cantor negou-se a crescer. Não quis tornar-se adulta. Quis ser para sempre criança porque acreditava que quiçá, um dia, o cantor pudesse viver a infância que ele não pôde ter. E quando esse dia chegasse, ele teria de estar preparado para brincar e dar risadas encantadoras. O que uma voz de criança sabe fazer melhor do que ninguém.
a noite
A noite foi inventada para interromper as brincadeiras das crianças. Quando cai a noite, já não se pode mais brincar de bolinha de gude, nem de amarelinha. Muito menos de levantar pandorga.
A noite é uma invenção dos adultos. Eles vão lá, todo santo dia, e cobrem o nosso quintal com um imenso pano preto. Um pano bastante velho que, por ser usado diariamente, já tem milhares de furinhos por onde se vê passar pinguinhos brilhantes da luz do sol.
Mas não adianta. As crianças vão dormir e acabam se divertindo ainda mais. Porque nos sonhos elas brincam de voar, brincam de super-herói e de mocinho no velho oeste. O mocinho que beija a mocinha. De olhos fechados.

Friday, April 16, 2004

a sua música
Canto uma música que eu não lembro direito a letra, até porque é em inglês e algumas partes eu não consigo decifrar a pronúncia. Cantores não se cansam. A gente dá play e eles cantam. A gente põe no repeat e eles cantam sem parar, infinitamente. Algumas partes da música eu nunca vou saber mesmo, porque era você quem sempre as cantava. E eu não decorava de propósito só pra ter a certeza de que você sempre iria cantar com a sua voz que, embora você odiasse, eu a achava linda. Você precisa entender que a gente não ouve a nossa voz como as outras pessoas escutam. A voz que a gente ouve é a voz dos nossos pensamentos, a voz de quando falamos sozinhos. A voz de quando ensaiamos as falas para o segundo encontro. Aqueles diálogos que ensaiamos por diversas vezes, mas que na hora dá tudo errado. A gente gagueja. Troca as palavras. Conjuga o verbo errado. Porque a gente guarda as palavras no cérebro, mas na última hora o coração fura a fila e acaba falando por nós.

Thursday, April 15, 2004

olhando pela janela ouvindo piazzola
E lá vai ela. Toda branquinha, leve, a passos lentos, muito lentos. Lá vai ela, no meio de uma multidão onde todas se parecem, exceto ela, que tem forma, tamanho e movimentos diferenciados. Ela brinca de sobe e desce como uma menina sozinha num elevador que tem paredes de vidro. Segue em frente, agora um pouco mais depressa que as demais. Correndo a favor do vento, ela vai abandonar a vida de cirrus para se fundir a um nimbus. Assim está melhor. Agora ela se sente grandiosa, pronta para continuar seu árduo trabalho de conceder alguns minutos de sombra àquelas pessoas que parecem formiguinhas lá embaixo, destilando ao sol das duas da tarde.

Wednesday, April 14, 2004

sobre largatixas
Dizem que o ser humano veio da água, e que um dia já foi réptil. Evoluiu, evoliu e chegou onde chegou. Hoje domina o mundo. E que os nossos antepassados eram parentes próximos dos antepassados dos atuais répteis, como os crocodilos, os lagartos e até as lagartixas.

Quem é que não teve uma fase sádica na infância (para alguns essa fase é eterna, como no meu caso) e não matou formigas com lupas ao sol, não arrancou uma pata de gafanhoto ou uma asa de mosca?

Quem já fez isso tudo, certamente também já jogou uma havaianas numa lagartixa, só pra ver ela desprendendo o rabo. Tem gente que acha que é tão bom na mira que acertou exatamente no rabo da lagartixa, partindo-o em dois. Não, ela simplesmente desprende seu rabo quando aumenta muito a adrenalina (ou naftalina, como diria Jardel).

É uma defesa, o rabo fica ali, se mexendo, entretendo o predador enquanto ela se esconde entre alguma fresta de azulejo. Depois de alguns dias, tcha-nãnnnn! Rabo novo, modelo 2004! O incrível poder de regeneração do animal.

Aí fica no ar uma questão. E do outro lado? No lado do rabo, não se regenera um novo corpo, com uma lagartixa toda nova, sem rugas nem cabelos brancos? Viu? Por um detalhe é que as lagartixas não conquistaram o mundo.

Tuesday, April 13, 2004

E ele resolveu virar quadrúpede.
Agachou-se, pôs as duas mãos ao chão e tomou seu rumo. No segundo dia, tendo bolhas em suas mãos, providenciou um par de luvas de goleiro. As pessoas estranhavam. Umas riam, outras torciam o nariz. Mas ele estava convicto.

Alguém havia de contestar essa verdade absoluta. Se algum dia o ser humano já foi quadrúpede e deixou de ser, foi porque um indivíduo decidiu desafiar a todos e andar de pé. Foi difícil. Ah, se foi. Num primeiro momento, exigiu de toda a capacidade do labirinto. Mas depois foi que era um Dodge. E assim deveria ser também com o processo inverso.

Logo no terceiro dia, começou a notar significativas vantagens. Andando por uma calçada toda irregular, eis que o nosso amigo tropeça numa laje mais alta com o pé direito. Mas lá estavam todos os outros três membros para manter a estabilidade que o ser humano necessita. Nem foi preciso dar aquela famosa corridinha de 3 passos pra disfarçar o tropeço.

À noite, foi tomar umas polar geladas e entrou pra dentro da garrafa. Na hora de ir pra casa, não passou o vexame de andar cambaleando. Os vizinhos até riam, mas era somente pelo fato de ele estar caminhando na tração 4x4.

E assim foi. Cada dia uma descoberta. A oferta de empregos para quadrúpedes era imensa: aplicador de sinteko, pintor de rodapé, colador de carpetes, secador de quadras de vôlei e por aí vai.

No quarto dia, foi a um aniversário de uma amiga. Até chamou a atenção no momento em que chegou na festa, mas o auge mesmo foi às 2h da manhã. Na hora em que todo mundo já estava num estadinho lamentável, o dj resolve tocar uma seqüência de axé music. O quadrúpede foi ao centro da rodinha e começou a puxar as coreografias. Inovou novamente, trocando a coreografia de "dá uma abaixadinha" para "dá uma levantadinha", emendando uma rebolada de pé. Momento memorável. Pareciam que aqueles seres que dançavam axé finalmente começariam a evoluir.
outro diálogo
- papai, o que é sexo?
- sexo é a diferença entre o homem e a mulher. A mulher é do sexo FEMININO. O homem, é do sexo MASCULINO.
- e as crianças, não têm sexo, papai?
- claro que têm. Você é uma criança do sexo MASCULINO. Só os anjos é que não têm sexo.
- ah, eles são bissexuais?
- não, filho, eles são assexuados.
- como assim?
- não têm pipi nem xexeca.
- mas não rola nem uma masturbaçãozinha básica?

Wednesday, April 07, 2004

em 3 segundos
chegou no parapeito deu um passo a frente com o pé esquerdo e mais outro com o pé direito respirou fundo olhou para o horizonte e viu a cidade encoberta pela poluição olhou para baixo saltou abriu os braços como o cristo redentor só que de cabeça pra baixo teve flashbacks de toda sua vida a inseparável boneca de pano o primeiro beijo o primeiro e unico amor a morte do avô vento no rosto as pessoas que pareciam formiguinhas começam a tomar uma proporção real bungee jump sem elástico. não tem volta.

Sunday, April 04, 2004

KM 229
Vacas de beira de estrada são as únicas que jamais crescem. Já nascem daquele tamanho e ficam lá, pequeninas e imóveis como se fossem bonequinhos de ferro sobre um tabuleiro verde. Vacas não brincam. Nem mesmo quando crianças. Não correm para se divertir. Só correm quando algum caminhoneiro as sacaneia com aquela buzina de ar, que se aciona puxando uma corrente.
O olhar das vacas reflete a vida triste e tediosa que levam. Sequer abanam o rabo para demonstrar alegria, como fazem os cães. Vez que outra, movimentam o rabo para espantar uma mosca que incomoda o seu interminável descanso, tal qual um bêbado que dorme na sarjeta ao sol do meio-dia.
Assim é a vida das vacas. Sem expectativas. Não esperam ter família, casa própria ou trabalho. Muito menos encontrar um grande amor. Uma vida toda à espera da morte.