Tuesday, March 23, 2004

ADEUS, MÚSICA LENTA.
1989. Ramón tinha 15. Ritinha, recém feito 18. Festa jovem no Clube do Comércio de Miraguá do Sul. Se você não sabe onde fica Miraguá do Sul, não tem problema. Todas as cidadezinhas do interior têm, além de um nome esquisito, uma praça, uma prefeitura, uma igreja e um Clube do Comércio. Pois bem, a festa jovem ocorria mensalmente, no último sábado de todo mês ímpar. Nos outros sábados, nada. Ficar esparramados pela praça e ao longo da avenida, desfilando de um lado para o outro de carro ou a pé, era o que restava àqueles pobres adolescentes com os hormônios à flor da pele.

Mas não havia mesmo outra opção. Não tinha um bar com música pra dançar, muito menos com shows de bandas de rock garagem (sim, houve um gênero musical chamado rock garagem nos anos 80).

Ramón era um adolescente bastante precoce pra sua idade. De origem humilde (chinelão, mesmo), estudava à noite e, durante o dia, trabalhava com o seu irmão mais velho, que era dono de uma empresa de comunicação visual (pintava letreiros para fachadas de lojas e também confeccionava faixas para bixos na época de vestibular). O negócio ia bem e com essa pacata profissão ele ganhava quase um barão por mês. Já tinha até adquirido um fusca 74 amarelo-ovo com o dinheiro do seu suor.

Rita de Cássia, a Ritinha, era uma menina recatada e recém havia se formado no segundo grau. Uma aluna exemplar. Sonhava com a cidade grande, em estudar pedagogia na URGS, conhecer o tal brique da redenção, o trensurb, o relógio d'água do Iguatemi. E todas essas coisas da metrópole.

Mas a família era contra. Diziam que ela devia arranjar um marido rico que a sustentasse. Ritinha era a única menina da casa. Tinha 4 irmãos. Um mais forte que o outro. O que tornava a vida dela um pouco mais interessante eram as amizades. Uma de suas melhores amigas era Rafaela, a irmã de Ramón, que havia sido sua colega desde o jardim-B.

Ramón se dava muito bem com Rafaela. E por isso conhecia todos os sonhos, todos os planos e até as fantasias amorosas de Ritinha. Das quais, infelizmente, ele nunca fazia parte. Sempre que ele a encontrava na rua, fazia a promessa:
- se tu passar na URGS eu faço uma faixa de graça pra ti!!!

Porque de fato ele queria que a Ritinha passasse na URGS. E fazer uma faixa de bixo pra pessoa que ele tanto amava (ele tinha certeza disso) seria uma grande honra. Seria o trabalho mais prazeroso da sua vida. Já imaginava até o layout: a faixa seria amarela, em alusão aos cabelos loiros da Ritinha; o X do "bixo" seria em vermelho, para lembrar a cor dos seus lábios; e ainda escreveria PEDAGOGIA - UFRGS em azul, que era a cor dos seus olhos.

Ritinha começou a desconfiar que Ramón não queria apenas fazer uma faixa para ela. Que ele realmente queria que ela passasse no vestibular. E isso a comovia. Enfim, alguém que torcia para que os sonhos dela se realizassem. Alguém que se importava com a sua felicidade.

O dia em que ela se deu conta disso foi num sábado, a exatamente uma semana da próxima festa jovem do CC. Ela estava sentada na praça com umas amigas (inclusive Rafaela), quando Ramón passa no seu fusquinha de cor inconfundível e grita novamente:
- se tu passar na URGS eu faço uma faixa de graça pra ti!!!
Embora envergonhada com a situação, ela sorriu, abanou discretamente, ficando em seguida com o rosto ruborizado.

O detalhe é que próximo às gurias estava um dos seus irmãos. Logo a notícia se espalhou entre os outros irmãos, que não admitiam que um pobretão se metesse com a irmãzinha querida. Combinaram de dar uma surra em Ramón caso ele encostasse um único dedo na Rita de Cássia. O guri estava jurado de morte e nem sabia.

Para Ramón, essa foi a semana mais longa da sua vida. Uma eternidade. Nunca chegava o sábado da Festa Jovem do CC. Era a chance dele convidar a doce Ritinha para dançar ao som de Debbie Gibson e então beijá-la de olhos fechados, fazer juras de amor eterno, faixas de vestibular e tudo mais. E este momento seria na hora em tocassem as músicas lentas. Infelizmente, o Momento Música Lenta já não existe mais nas festas de hoje.

O MML funcionava como um excelente quebra-gelo. Era a chace dos mais tímidos e travados chegarem numa menina sem precisar dar nenhuma cantada. Bastava convidá-las para dançar. E a cantada poderia vir depois, quando o par já estivesse dançando, quando ambos já se sentissem um pouco mais à vontade.

Eis que chega o grande dia. A cidade inteira ouriçada, os salões de beleza lotados, os carros todos impecavelmente encerados e exalando aquele perfuminho de taxista. Defronte ao Clube do Comércio, uma fila gigantesca se formara duas horas antes do horário que estava marcado para a festa começar.

Ramón vestiu sua calça bag, arrumou com gel o cabelo a la Paulo Ricardo do RPM, se perfumou com Trës-brut di Marchand e calçou seu tênis Ivan Lendl recém comprado em 6x sem juros. Pegou o fusca e passou na casa de Lucas, o seu melhor amigo. Os dois sempre saiam pra beber e, nos momentos de embriaguez, Ramón era o primeiro a declarar em voz alta:
- cara, TU é meu irmão...TU euconsideropracaralho. TU tem até nome de santo! TU é meu parceiro.

Quando os dois chegaram no clube, a festa já estava bombando, o Oingo Boingo comendo e todo mundo enchendo a cara de Malt 90 (ou Malt Nojenta, como se chamava carinhosamente essa cerveja). Deram umas duas voltas pelo salão e nada da Ritinha.
Lá pela quinta cerveja, quando o dj começou a tocar um bloco de rock brasileiro, Lucas foi tirar água do joelho, dizendo pro Ramón não sair dali em hipótese alguma.
Tocam duas do Legião, uma dos Paralamas, uma do Ultraje...e de repente pára tudo.

É o Momento Música Lenta. A mudança era assim mesmo, brusca, como se você tirasse da Ipanema e colocasse na Antena 1. Parece ser uma do Steve Wonder. A música começa com um pianinho, alguns casais começam a dançar, enquanto outros vão saindo da pista em direção às mesas. No meio desse tumulto, Ramón vê Ritinha, e ela também o avista. Ele pensa em gesticular para ela vir, mas lembra que quem tem que tomar a iniciativa é o homem. E também lembra que o Lucas havia ordenado que ele não saísse dali em hipótese alguma. Ritinha então começa a tentar se aproximar de Ramón. Mas há um batalhão de gente entre eles, e atravessar aquele povo todo seria uma tarefa quase impossível.

Ramón, percebendo que Ritinha estava vindo em sua direção, fica com o olhar atônito e embasbacado, não enxergando mais nada além da moça. Nada mais importava, o resto era apenas uma grande imagem desfocada. Até que Lucas chega apavorado:

- não faz isso, meu!
- ã?
- cara, tu sabe o que quer dizer "jamón" (leia-se ramón) em espanhol?
- não, porque?
- quer dizer "presunto". E é isso que tu vai virar se tu encostar um dedo na Ritinha. Foi o papo que eu ouvi no banheiro! Os irmãos da Ritinha disseram que se tu enconstar um dedo nela tu é um cara morto!
- filhos da puta!
- Deixa que eu danço com a guria agora pra nenhum magrão chegar perto dela. Depois eu te devolvo, intacta. Confia em mim.

Ritinha mal chegou perto deles e Lucas já foi pegando a sua mão, convidando-a (ou arrastando-a) pra dançar com ele.
Ramón, meio a contragosto, aceitou a solução proposta por Lucas. Afinal, se não fosse o seu amigo com nome de santo, a essas horas seria ele quem estaria mais perto do Senhor.
O detalhe é que a menina não era de se jogar fora. E com umas cevas na cabeça então, podia-se dizer que ela era uma gracinha. Linda. Irresistível.

Foi então que Lucas teve a grande idéia de salvar de vez a pele do amigo.
- olha só, Ritinha... Se eu te der um beijo, os teus irmãos vão ter certeza de que você não quer nada com o Ramón.
- ã?
Aproveitando que a menina abriu a boca pra dizer "ã", ele tascou-lhe um beijão de língua. Ritinha jamais tivera seu corpo invadido tão profundamente por um ser alheio. Os dois se empolgaram de tal forma que as pessoas em volta chegaram a ficar constrangidas. Uns riam, outros faziam brincadeiras, perguntando se ele ia comer ali mesmo ou se preferia que embrulhasse. Os irmãos de Ritinha nada fizeram, pois Lucas era um bom partido. A família do rapaz, assim como a de Ritinha, tinha dinheiro, tinha respeito e dignidade.

Pelo menos até o amanhecer, quando foi colocada uma faixa na frente da sua casa que dizia "LUCAS, SEU FILHO DA PUTA, TEU NOME DEVIA SER JUDAS". E, em frente à casa de Ritinha, uma outra, que dizia "RITA, PORTO ALEGRE É MESMO O TEU LUGAR, PRINCIPALMENTE A AV. FARRAPOS".

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