Wednesday, March 31, 2004

QUANDO EU FOR AO PÓLO NORTE
um dia eu quero conhecer o pólo norte. pra ver o sol da meia noite, os esquimós e o papai noel. mas dizem que papai noel não existe. e sol da meia noite não deve ser lá grande coisa. deve ser tipo relógio desregulado. tudo bem, eu me contento em ver um esquimó de verdade. pensando bem, eu preferiria conhecer uma esquimoa. eu chegaria bem perto da sua orelha gelada e sussurraria palavras de amor pra ver se o coração dela não batia com mais e mais força e não levava um pouco mais de sangue até a ponta daqueles pobres dedinhos tão roxos de frio.

Monday, March 29, 2004

COISA MAIS LINDA DO MUNDO
Ontem eu conheci a menina mais linda do mundo. Eu sei que existem meninas à granel. Bilhões. Só na China deve haver meio bilhão delas. Mas eu estou convencido de que essa é a mais linda de todas. Não me restam dúvidas. Nem perca seu tempo tentando me apresentar outras. Nenhuma vai chegar aos seus pés. Só ontem eu a vi três vezes. Passou pelo retrovisor direito, pelo retrovisor do meio e, por último, pelo retrovisor esquerdo. Abriu o sinal.

Sunday, March 28, 2004

MÁ FASE
O centroavante não está de bem com a vida. Há meses ele não faz gols. Nem de pênalti. Nem de canela. Nem gol contra. Mas ele sabe que nasceu para o ofício. Tem estatura e cacuete de centroavante, tem bom chute, bom cabeceio e se posiciona bem. Ele sabe que, mais cedo ou mais tarde, num belo domingo de sol, num grande clássico, ele terá a sua chance de reencontrar o caminho dos gols. Ele sabe que pode. Jamais vai desistir. Ele agora só depende de uma coisa: que o pessoal do hospício pare com essa besteira de jogar futebol sem bola.


UM ROTEIRO
Quatro velhinhas tomam chá das cinco num simpático café. Mesinhas na rua. Uma delas está tomando coca-cola. Uma abelha pousa na latinha e bebe toda aquela pequena poça de coca que geralmente se forma naquele sulco, bem na borda da parte superior da lata.
Uma das velhinhas que está tomando chá tenta espantá-la. Xô, abelha, xô!
A abelha voa e se aproxima do rosto dela.
[super close, com uma grande angular, como se fosse a visão da velhinha, que usa óculos]
A abelha paira no ar como se fosse um colibri e - ARRRRROUT!!!!
A velhinha que está tomando coca-cola dá uma gargalhada insana. Pega o copo, toma um golão e também arrota.
Assinatura: Coca-cola. Essa é a real.

Friday, March 26, 2004

1 CONVERSA E 1/2
- Senhor Cabral, falta muito pra chegarmos ao Brasil?
- Quarenta quilômetros.
- Senhor Cabral, quando vamos chegar ao Brasil?
- um dia depois do feriado de Tiradentes, meu filho.
- Senhor Cabral, os índios brasileiros são canibais?
- São, mas só comem carne vermelha. Você é branco.
- Senhor Cabral, o senhor é viado?
- Claro que não, guri. Agora tira o pau do meu cú que é a minha vez.
DÁ UM REÁU AÍ
Osvaldo Aranha, meio-dia e cinco. Vou pegar um T-7 pra ir pro Iguatemi. Mas um cego me pede pra avisá-lo quando passar o Rio Branco-Anita. Segundo ele, o Rio Branco passaria por volta de meio-dia e dez (ele me chamava de magrão). Me deu um papelzinho dizendo que era cego e que necessitava de uma ajuda, pois não tinha trabalho. Eu realmente estava num dia bom e dei um real a ele.

Uns 2 ou 3 minutos depois veio o T-7. Azar, vou ficar aqui com o cego. Ele é quem não pode perder o ônibus. Já viu que merda o cego perder um ônibus? ele não. Mas então, ao meio-dia e dez cravados, surge o Rio Branco. Eu o conduzo até a porta da frente, pois é na frente que sentam os idosos, gestantes, deficientes e gordos. Me despeço, ele agradece, aquele papinho de "a gente se vê", coisa e tal.

Quando vejo, o cego desce do bumba e vai correndo até a porta de trás. Claro, na parte que fica atrás da roleta o quorum é bem maior pra ele faturar uns trocados com outros trouxas de coração mole que nem eu. Ele deve pensar: nóis não enxerga mas nóis não é bobo, mano. E se fue.

Deu mais uns 5 minutos e veio outro T-7. Entrei, dei um VT, passei a roleta e sentei ao lado de uma moça (bem apessoada, por sinal). Mas a história que eu vou contar não envolve a minha vizinha de assento. Infelizmente. Chegamos na próxima parada, na do Clínicas. Quando eu vejo, também pela porta de trás, entram 4 peruanos (ou seriam bolivianos? paraguaios? equatorianos?) enfim, eram tipo eu se deixasse o cabelo crescer.

Os caras começaram a tocar músicas andinas, com aquelas flautas de bambu, ocarina e viola. Tocaram El Condor Pasa. Aplausos. Muitos aplausos. Acho que tinha umas tias que se emocionaram muito com o show. Próxima do setlist: Guantanamera. Depois, uma do Simon & Garfunkel e mais outra que eu não me lembro. Uma mistura de pocket show com flash-mob, performance e invasão (sim, eles deram portão).

Embora a apresentação tenha me agradado pelo fato de me fazer lembrar da viagem ao Peru, dessa vez eu não dei sequer uma moeda. Porque o T-7 tava tão lotado que o carinha que passava o chapéu mal conseguia se locomover. Se tivesse chegado até mim, eu certamente teria contribuído com algum din-din. Se deu mal o peruano.

Mas depois fiquei pensando. Vai que isso pega? Dormir em ônibus nunca mais. E se isso fosse no Peru, com show relâmpago de brasileiros nos ônibus de lá? Como seria? Com certeza seria beeem mais divertido, um show de axé com umas dançarinas com a tanga atolada no rêgo. Será que alguém já teve essa idéia? As oportunidades estão aí. Só não vê quem não quer. Ou é cego.

Wednesday, March 24, 2004

SOBRE RUAS PACATAS
passeio pelas ruas pacatas que brincam de esconde-esconde entre as grandes avenidas que não descansam sequer um minuto, nem mesmo para dar um sorriso sarcástico do andar rebolado do manco. a rua pacata, por ser demasiado pacata, também é cheia de muros e grades. enquanto meus pés escolhem em quais pedras de basalto irregular irão pisar, a mão direita voa, tocando cada uma das dezenas de hastes que formam uma grade. trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr. minha mão direita faz todo o restante do corpo vibrar, como se eu segurasse uma britadeira do bem - daquelas que não ousam me acordar as onze da manhã de uma sábado chuvoso. sinto a liberdade que só quem está do lado de fora pode sentir. e mudo de idéia antes que chegue numa cerca de coroas de cristo.
SOBRE A LUA
enxergar a lua de dia é tão estranho quanto ver o sol à noite. por isso eu sempre achei que a lua de dia fosse uma rolha, que segurava todo o ar que existia dentro dessa grande garrafa na qual vivemos. morria de medo que, de tanto os carros e as pessoas emitirem gases, a lua, tal qual uma rolha de champanhe, um dia estourasse e fosse parar lá no terreno do vizinho.
SOBRE O DEDÃO
dedão do pé? não sei qualé.
tem o dobro da largura dos demais
e não tem nada de mais.
dedão do pé. serve pra furar a meia,
pra maltratar a bola
e gastar à toa o esmalte da meninas

mas como pra todo o sapato velho
existe um pé torto,

o que seria das havaianas
se não fosse o dedão do pé?

:-P
emoticons do messenger nunca vão substituir as letras desenhadas uma a uma, muito menos o cheiro da casa da minha amada que entrou de gaiato no envelope da carta.

Tuesday, March 23, 2004

SOBRE AS BEBIDAS
para carnes brancas, vinho branco ou rosé
para carnes vermelhas, merlot ou cabernet
para frutos do mar, um champanhe vai bem
para a balada, tequila sunrise, neném.

para uma noite de sexo, não esqueça a catuaba
para um verão chuvoso, polar bem gelada

para assistir ao gre-nal, chopp com colarinho
para fechar negócio, johnnie walker 12 aninhos

já sei tudo sobre bebidas, sou quase um sommelier
descobri que tenho cirrose, é agora que eu vou me foder.

ADEUS, MÚSICA LENTA.
1989. Ramón tinha 15. Ritinha, recém feito 18. Festa jovem no Clube do Comércio de Miraguá do Sul. Se você não sabe onde fica Miraguá do Sul, não tem problema. Todas as cidadezinhas do interior têm, além de um nome esquisito, uma praça, uma prefeitura, uma igreja e um Clube do Comércio. Pois bem, a festa jovem ocorria mensalmente, no último sábado de todo mês ímpar. Nos outros sábados, nada. Ficar esparramados pela praça e ao longo da avenida, desfilando de um lado para o outro de carro ou a pé, era o que restava àqueles pobres adolescentes com os hormônios à flor da pele.

Mas não havia mesmo outra opção. Não tinha um bar com música pra dançar, muito menos com shows de bandas de rock garagem (sim, houve um gênero musical chamado rock garagem nos anos 80).

Ramón era um adolescente bastante precoce pra sua idade. De origem humilde (chinelão, mesmo), estudava à noite e, durante o dia, trabalhava com o seu irmão mais velho, que era dono de uma empresa de comunicação visual (pintava letreiros para fachadas de lojas e também confeccionava faixas para bixos na época de vestibular). O negócio ia bem e com essa pacata profissão ele ganhava quase um barão por mês. Já tinha até adquirido um fusca 74 amarelo-ovo com o dinheiro do seu suor.

Rita de Cássia, a Ritinha, era uma menina recatada e recém havia se formado no segundo grau. Uma aluna exemplar. Sonhava com a cidade grande, em estudar pedagogia na URGS, conhecer o tal brique da redenção, o trensurb, o relógio d'água do Iguatemi. E todas essas coisas da metrópole.

Mas a família era contra. Diziam que ela devia arranjar um marido rico que a sustentasse. Ritinha era a única menina da casa. Tinha 4 irmãos. Um mais forte que o outro. O que tornava a vida dela um pouco mais interessante eram as amizades. Uma de suas melhores amigas era Rafaela, a irmã de Ramón, que havia sido sua colega desde o jardim-B.

Ramón se dava muito bem com Rafaela. E por isso conhecia todos os sonhos, todos os planos e até as fantasias amorosas de Ritinha. Das quais, infelizmente, ele nunca fazia parte. Sempre que ele a encontrava na rua, fazia a promessa:
- se tu passar na URGS eu faço uma faixa de graça pra ti!!!

Porque de fato ele queria que a Ritinha passasse na URGS. E fazer uma faixa de bixo pra pessoa que ele tanto amava (ele tinha certeza disso) seria uma grande honra. Seria o trabalho mais prazeroso da sua vida. Já imaginava até o layout: a faixa seria amarela, em alusão aos cabelos loiros da Ritinha; o X do "bixo" seria em vermelho, para lembrar a cor dos seus lábios; e ainda escreveria PEDAGOGIA - UFRGS em azul, que era a cor dos seus olhos.

Ritinha começou a desconfiar que Ramón não queria apenas fazer uma faixa para ela. Que ele realmente queria que ela passasse no vestibular. E isso a comovia. Enfim, alguém que torcia para que os sonhos dela se realizassem. Alguém que se importava com a sua felicidade.

O dia em que ela se deu conta disso foi num sábado, a exatamente uma semana da próxima festa jovem do CC. Ela estava sentada na praça com umas amigas (inclusive Rafaela), quando Ramón passa no seu fusquinha de cor inconfundível e grita novamente:
- se tu passar na URGS eu faço uma faixa de graça pra ti!!!
Embora envergonhada com a situação, ela sorriu, abanou discretamente, ficando em seguida com o rosto ruborizado.

O detalhe é que próximo às gurias estava um dos seus irmãos. Logo a notícia se espalhou entre os outros irmãos, que não admitiam que um pobretão se metesse com a irmãzinha querida. Combinaram de dar uma surra em Ramón caso ele encostasse um único dedo na Rita de Cássia. O guri estava jurado de morte e nem sabia.

Para Ramón, essa foi a semana mais longa da sua vida. Uma eternidade. Nunca chegava o sábado da Festa Jovem do CC. Era a chance dele convidar a doce Ritinha para dançar ao som de Debbie Gibson e então beijá-la de olhos fechados, fazer juras de amor eterno, faixas de vestibular e tudo mais. E este momento seria na hora em tocassem as músicas lentas. Infelizmente, o Momento Música Lenta já não existe mais nas festas de hoje.

O MML funcionava como um excelente quebra-gelo. Era a chace dos mais tímidos e travados chegarem numa menina sem precisar dar nenhuma cantada. Bastava convidá-las para dançar. E a cantada poderia vir depois, quando o par já estivesse dançando, quando ambos já se sentissem um pouco mais à vontade.

Eis que chega o grande dia. A cidade inteira ouriçada, os salões de beleza lotados, os carros todos impecavelmente encerados e exalando aquele perfuminho de taxista. Defronte ao Clube do Comércio, uma fila gigantesca se formara duas horas antes do horário que estava marcado para a festa começar.

Ramón vestiu sua calça bag, arrumou com gel o cabelo a la Paulo Ricardo do RPM, se perfumou com Trës-brut di Marchand e calçou seu tênis Ivan Lendl recém comprado em 6x sem juros. Pegou o fusca e passou na casa de Lucas, o seu melhor amigo. Os dois sempre saiam pra beber e, nos momentos de embriaguez, Ramón era o primeiro a declarar em voz alta:
- cara, TU é meu irmão...TU euconsideropracaralho. TU tem até nome de santo! TU é meu parceiro.

Quando os dois chegaram no clube, a festa já estava bombando, o Oingo Boingo comendo e todo mundo enchendo a cara de Malt 90 (ou Malt Nojenta, como se chamava carinhosamente essa cerveja). Deram umas duas voltas pelo salão e nada da Ritinha.
Lá pela quinta cerveja, quando o dj começou a tocar um bloco de rock brasileiro, Lucas foi tirar água do joelho, dizendo pro Ramón não sair dali em hipótese alguma.
Tocam duas do Legião, uma dos Paralamas, uma do Ultraje...e de repente pára tudo.

É o Momento Música Lenta. A mudança era assim mesmo, brusca, como se você tirasse da Ipanema e colocasse na Antena 1. Parece ser uma do Steve Wonder. A música começa com um pianinho, alguns casais começam a dançar, enquanto outros vão saindo da pista em direção às mesas. No meio desse tumulto, Ramón vê Ritinha, e ela também o avista. Ele pensa em gesticular para ela vir, mas lembra que quem tem que tomar a iniciativa é o homem. E também lembra que o Lucas havia ordenado que ele não saísse dali em hipótese alguma. Ritinha então começa a tentar se aproximar de Ramón. Mas há um batalhão de gente entre eles, e atravessar aquele povo todo seria uma tarefa quase impossível.

Ramón, percebendo que Ritinha estava vindo em sua direção, fica com o olhar atônito e embasbacado, não enxergando mais nada além da moça. Nada mais importava, o resto era apenas uma grande imagem desfocada. Até que Lucas chega apavorado:

- não faz isso, meu!
- ã?
- cara, tu sabe o que quer dizer "jamón" (leia-se ramón) em espanhol?
- não, porque?
- quer dizer "presunto". E é isso que tu vai virar se tu encostar um dedo na Ritinha. Foi o papo que eu ouvi no banheiro! Os irmãos da Ritinha disseram que se tu enconstar um dedo nela tu é um cara morto!
- filhos da puta!
- Deixa que eu danço com a guria agora pra nenhum magrão chegar perto dela. Depois eu te devolvo, intacta. Confia em mim.

Ritinha mal chegou perto deles e Lucas já foi pegando a sua mão, convidando-a (ou arrastando-a) pra dançar com ele.
Ramón, meio a contragosto, aceitou a solução proposta por Lucas. Afinal, se não fosse o seu amigo com nome de santo, a essas horas seria ele quem estaria mais perto do Senhor.
O detalhe é que a menina não era de se jogar fora. E com umas cevas na cabeça então, podia-se dizer que ela era uma gracinha. Linda. Irresistível.

Foi então que Lucas teve a grande idéia de salvar de vez a pele do amigo.
- olha só, Ritinha... Se eu te der um beijo, os teus irmãos vão ter certeza de que você não quer nada com o Ramón.
- ã?
Aproveitando que a menina abriu a boca pra dizer "ã", ele tascou-lhe um beijão de língua. Ritinha jamais tivera seu corpo invadido tão profundamente por um ser alheio. Os dois se empolgaram de tal forma que as pessoas em volta chegaram a ficar constrangidas. Uns riam, outros faziam brincadeiras, perguntando se ele ia comer ali mesmo ou se preferia que embrulhasse. Os irmãos de Ritinha nada fizeram, pois Lucas era um bom partido. A família do rapaz, assim como a de Ritinha, tinha dinheiro, tinha respeito e dignidade.

Pelo menos até o amanhecer, quando foi colocada uma faixa na frente da sua casa que dizia "LUCAS, SEU FILHO DA PUTA, TEU NOME DEVIA SER JUDAS". E, em frente à casa de Ritinha, uma outra, que dizia "RITA, PORTO ALEGRE É MESMO O TEU LUGAR, PRINCIPALMENTE A AV. FARRAPOS".

Monday, March 15, 2004

SOBRE POODELS
Eu odeio poodles. Eu e muita gente nesse mundo. Mas há quem goste. Muita gente. Há quem inexplicavelmente ame-os. Sempre que vejo um exemplar dessa abominável raça me questiono basicamente sobre duas coisas. 1) por que raios uma pessoa vem a ter um poodle? 2) como é o habitat natural dos poodles?
Claro, o segundo questionamento é muito mais complexo que o primeiro. Porque todo o cão tem a sua história, a sua origem e as suas peculiaridades. O pastor alemão, por exemplo, certamente tem esse nome devido à sua utilidade nas pastagens verdes da Alemanha (ou você pensou que fosse uma homenagem a algum pastor evangélico de origem germânica?). O husky siberiano, um bravo puxador de trenós da Sibéria. O cocker, um exímio assistente dos caçadores de aves. E assim por diante. Mas e o poodle? O que fazia? Qual a sua função? Que lugar ele ocupa numa cadeia alimentar? Malditos poodles, a que vocês vieram ao mundo?

- moço?
- oi?
- o senhor não viu um cachorrinho perdido por aí?
- não. como ele é?
- é um poodle branco, mais ou menos desse tamanho assim, ó. Tem 8 meses, atende pelo nome de Chayanne e tem um lacinho rosa na cabeça.
- ah, certo. Mas não vi não.

Por uma fração de segundos pensei em perguntar o telefone dela, caso eu achasse a tal Chayanne. Era uma ótima deixa, uma oportunidade de conseguir o telefone da moça, que não era de se jogar fora. Mas deixei por isso mesmo e segui meu rumo. Sério. Não ia valer a pena. Uma pessoa que tem (ou tinha) uma poodle chamada Chayanne? Boa pessoa não devia ser.

Mas fiquei pensando na descrição do bicho. Poodle branco, nem grande nem pequeno, com um lacinho rosa na cabeça. Básico. Óbvio. Poderia ser qualquer um poodle, o primeiro que eu encontrasse na rua. Era como pedir pra alguém encontrar um japonês de olhos puxados, estatura mediana, cabelos pretos e lisos, que atendia pelo nome Tanaka. No centro de Tóquio. Ou em São Paulo mesmo.

Voltando à origem do cão, eu hei de pesquisar e descobrir. Mas por hora a minha intuição me diz que o poodle é uma raça geneticamente concebida, obtida por meio da cruza entre os genes de um cusco qualquer e uma estopa. Um produto inventado pelos yankees, lançado com o intuito de atender a uma necessidade latente (terrível esse trocadilho!) do mercado. Um produto fabricado em série que invadiu as petshops e conquistou o coração das madames carentes. Por isso é que eles são todos iguais. O poodle nada mais é do que um mini-me-feliz das madamas, travestido de cão. O que é uma total falta de respeito com os cães dignos de receberem o título de "melhor amigo do homem".

Em todo caso, se alguém ver um poodle branco perdido por aí não custa chamá-lo de Chayanne. Vai que rola uma recompensa.
SOBRE A CACHAÇA
a bebida é prejudicial
é marvada
é danada

é água que o passarinho não bebe
quero ver o dia em que ele levar um fora da passarinha
SOBRE POETAS
o poeta é um ser incompreendido
seja pelas mulheres
seja pela sociedade
até por ele mesmo
menos pelo papel em branco
que aceita tudo sem questionar
sequer uma vírgula
uma mesóclise ou um parenteses